domingo, 25 de junho de 2017

Memórias (de Alma Welt)

Viajei o mundo todo em minha mente,
Mesmo quase sem sair deste meu pampa.
Mas muito embora ignorada levemente,
Por quatro anos vivi na dura Sampa.

Ali pintei e andei pela Paulista
À procura de um amor que descobri
E apaixonamo-nos à primeira vista
Num desastroso episódio que vivi.

A princípio amei uma guria
Que no entanto descobri ser um guri
Que queria do amor a dupla via

E cuja confusão de identidade,
Já que o amava por trás, falso o pipi,
Deixou, ambígua, em mim, uma saudade...

.
24/06/2017

domingo, 1 de junho de 2014

A página do meio do Diário (de Alma Welt)

Quando era eu ainda bem guria,
Tornei-me escrava de minha irmã Solange,
Por algum tempo, e confesso: com volúpia,
Que revelá-lo já não me constrange.

Eu iria sofrer por um segredo
Que ela à Mãe ameaçava revelar,
A qual iria por certo me açoitar
Ou mesmo condenar a um degredo.

O beijo que causou o espanto todo
Não mesmo era comum mas espantoso,
Pois não fora na boquinha do meu Rodo

Mas na ponta do pintinho encantador
Que ele dizia ser muito gostoso
Para mim, pois de cereja o seu sabor...


 .

sábado, 2 de junho de 2012

Ninfeta (de Alma Welt)

Ninfeta - óleo s/ tela, de Guilherme de Faria, 60x50cm,

Ninfeta (de Alma Welt) 

Ninfeta, Rodo assim designava
Uma prima nossa, adolescente,
Que pra mim, no ateliê, nua posava,
À luz crepuscular do sol poente

E que a mim mesma remetia
Quando estava no auge da beleza
E não desperdiçada, com certeza,
Pois me dava de graça todo dia

E não me guardava com usura
Pra me vender depois como queriam
Minha mãe e Matilde, como pura

Mercadoria de negócio por contrato
Mesmo se assim não definiam
A coisa com que nunca fiz um pacto...
 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Acolhida (de Alma Welt)

                      A Acolhida- desenho de Guilherme de Faria, 2011 

A Acolhida (de Alma Welt)

Que doces e imensas acolhidas
Nosso côncavo corpo proporciona!
Que para isso fomos escolhidas,
E para isso temos nossa cona...

Todo o baixo-ventre é um abraço
Como também as longas pernas
Feitas para o cândido regaço
De quentes e úmidas cavernas!

Os lábios então, tanto os de cima
Como aqueles outros perfumados
Por quem tendes ainda mais estima!

Sim, vós, machos, varões assinalados
Deixai pois vossas foices e machados
E entregai-nos só aquilo que nos rima...

terça-feira, 1 de março de 2011

Ilusões (de Alma Welt)

Quantas ricas ilusões acalentei
Ao longo de uma intensa vida breve
Com tudo o que conheço e o que sei
Dos livros a que meu sonhar se deve.

Conheci todos os tempos e os povos,
Na Grécia, se não fui Palas Athena,
Na certa fui Leda e pus os ovos
Dos quais um fez nascer a bela Helena.

Com Frinéia aprendi a desnudar-me,
Mostrando o meu alvo corpo ao público
Sem contar que por isso iam julgar-me.

E isso foi aqui mesmo na coxilha
Que jamais vira tão rubro pêlo púbico,
Mas tão ralo que nem chega na virilha...

(sem data)

sábado, 23 de outubro de 2010

Fantasia no espelho (de Alma Welt)

Tu sabes que me entrego toda inteira
Quando tanges as cordas de minh’alma
Ao falar-me assim com tanta calma
Que esta noite me farás a tua rameira,

E me porás em obscenas posições
Rasgada e amarrada, soluçando,
Implorando a sério mil perdões
E de medo perna abaixo me mijando

Mas tudo isso e o estupro acalentado
Será fruído se for para valer
E me tiveres com esforço derrotado,

Pois lutarei como leoa encurralada
No espelho em que gozas teu poder
Ao fazer-me me ver nua e devassada...

(sem data)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Abantesma (Alma Welt)

À noite esperei o meu amado
Uma vez mais ouvindo cada passo
E cada vão murmúrio ali ao lado
Na minha louca vigília de fracasso.

Uma vez mais não veio o meu amado!
E às vezes penso vir só de mim mesma
Meu próprio triste espectro esperado
Como a mais patética abantesma...

E então me encho de carícias
Aquelas que mereço de verdade
Descartadas que vão as pudicícias...

E introduzo-me os dedos e objetos
Evocando o divino velho Sade
Dileto amigo dos amores abjetos...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Confissão de peona (de Alma Welt)

“Não mais caminharei pela coxilha
Em torno, Alma, ao vosso casarão.
Não era eu a infanta, a rica filha
E guardava a minha honra pr’um peão.

Muito tempo calei, por escabroso
E chocante demais para mim mesma,
E agora um impulso corajoso
Me disse pra contar à minha princesa.

No bosque, a passarada em polvorosa,
Na luta dominada, ali, no chão,
Conspurcada tive a fonte rosa.

Depois de deixar-me suja e nua
Entrou em mim por trás c'um palavrão
De fazer corar mulher da rua...”

(sem data)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Reencontro (de Alma Welt)

Caminhemos mansamente, meu irmão,
A vida nos deu mais uma chance.
Reencontramo-nos enfim, neste verão,
Estamos vivos e a viver nosso romance.

Nada pôde separar-nos (bem tentaram),
Não esqueço que de mim te arrancaram
Literalmente, de dentro e com estalido
Que nunca mais saiu do meu ouvido.

Estamos ainda aqui e de mãos dadas,
Eu prestes a entregar-me nua e inteira
Como outrora sob a nossa macieira,

Juntando-nos com a imortal candura
Do ser que um deus rachou a machadadas
E não logrou dobrar a criatura...

(sem nota)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mercúrio (de Alma Welt)

Se amar é um instinto, é um mistério
Que nesta vida a alguns possa faltar,
E quando penso num ser assim estéril
Me falta pouco ou nada pra chorar.

Bah! E eu conheci homem assim,
E quanta vergonha em relembrar
Que esse bruto entrou dentro de mim
E ainda hoje tento dele me lavar.

Eis o mal, não primevo, ser espúrio
Que minha meiga irmã já violava,
Fazendo dela pasto e sua escrava.

E que não contente, qual Mercúrio
Transitava, o bandido e mensageiro,
Nossa dor, seu prazer, nosso dinheiro...

(sem data)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Jura (de Alma Welt)

Façamos uma jura, meu irmão;
Não deixemos que nada nos separe,
Muito menos um padre e seu sermão
Ou que de nos mimar Matilde pare

Já que ela nos flagrou estupefata
Quando nos viu banhando nus
Na nossa lagoinha da cascata,
Coisa pouca que nem sequer faz jus

Ao quanto violamos a tal regra
Oriunda de um “pecado original”
A que desde piás não demos trégua.

E conservemos pura a nossa mente,
Pois que este carinho é tão primal
Quanto o prazer que o corpo sente...

(sem data)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pinóquio (de Alma Welt)

Quando guria recebi aqui na estância
A visita deslumbrante de uma prima
Que vi como encarnação da infância
Sulina, clara e ingênua obra-prima.

E não pude resistir a convidá-la
Ao galpão, meu “templo dos amores”
Onde eu poderia “fazer sala”
Mostrando meus brinquedos e pendores.

Mas lembro que surgiu a dona Ana
E nos interrompeu doce colóquio
Com a varinha de marmelo açoriana

Quando já nos reclinávamos na palha,
Eu a contar a saga do Pinóquio,
Sem o mágico nariz, que é minha falha...

(sem data)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Banho de inverno na cascata (de Alma Welt)

Os dias estão frios, não escuros,
E não quero esse inverno a afligir-me,
Mas inquieta me porei em ais e apuros
Com meu mano à cascata ao dirigir-me

Pois sou logo atraída pelas águas
E mesmo me desnudo a tiritar
E faço o meu banho de espantar
Com Rodo a aspirar minhas anáguas.

Então é a vez, eu já vestida,
Do pênis deste atleta de praínha
Fazer nessas águas a investida

Pois já me acolhera no seu pala
Aquecida no seu peito, assim nuínha,
E dissera-me, apontando: “mira, estala!”

(sem data)

sábado, 6 de junho de 2009

O Duplo da Alma (de Alma Welt)

Uma noite desci do leito meu
Por sentir a presença de alguém
Numa alta madrugada de Romeu
Quando a cotovia era por bem

E não o rouxinol do anoitecer...
Julieta ou Psiqué sem lampião,
Subi à mansarda do irmão
E empurrei a porta sem bater

E bah! O que vi mal suportei
E o forte coração se dissolveu:
Ali estava a outra que era eu,

Nua nos braços do belo jogador,
Alvas pernas no ar, fazendo amor
Do jeito que eu mesma me ensinei...

(sem data)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O espírito do vinho (de Alma Welt)

O ser que vive em nossa adega
Vela o eterno sonho desse ninho,
Brinca de deixar a alma cega
E nomeia-se “o espírito do vinho”.

Eu sei, ele mesmo me tomou
E me fez aos quinze desnudar-me,
Tateando quando a luz aqui faltou
Para ir ao sótão e entregar-me.

Depois de cada festa pampiana,
Lá estava sussurrando do meu lado,
Instando-me a correr esse perigo:

Eu tinha que passar pelo inimigo,
O sono leve da matrona Açoriana,
Para em risos colar no irmão amado...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Zeus e Ío (das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt )


Zeus e Ío (1530), por Correggio (ativo a partir de 1514- falecido em 1534)

2
Depois do cisne, resolvi, uma por uma,
Desafiar Metamorfoses mais sutis
Pois há sempre a rota em que se ruma
E Zeus não lança mão de formas vis.

Como Danaé no estranho banho
Dourado que a veio iluminar
Assim eu mesma tive um ganho
Ao pedir ao meu amor pra me dourar.

Faltava agora por nuvem ser tomada,
E como nunca apreciei o “fumacê”
Não conseguia matar esta charada.

Então junto à cascata do meu rio,
Envolta nua no vapor que ali se vê,
Fui possuída como a sonhadora Ío.


(sem data, circa 1999)


Nota
Percebe-se que o Mito da chuva de ouro de Danaé Alma resolveu com a simples urofilia, coisa que na verdade ela já conhecia bem com nosso irmão Rodo desde a infância. Note-se que urofilia ou urolagnia é uma prática sexual mais comum do que se pensa e conhecida popularmente como "banho dourado". Quanto à transformação de Zeus em nuvem para possuir a princesa Ío, Alma resolveu lindamente ao entregar-se ao seu amor em meio à neblina que se forma na nossa cascata, mais fortemente numa certa época do ano.(Lucia Welt)

Leda e o Cisne ( das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt)


Leda e o Cisne- escultura de Michelangelo

1
Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova

A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


(sem data, circa 1999)

Nota
Alma viveu sua extraordinária vida toda numa permanente dimensão poética. Ao ganhar de presente de nosso pai um maravilhoso e alvíssimo cisne vivo para soltá-lo no laguinho (o poço) da cascata, resolveu vivenciar os mitos das Metamorfoses de Zeus começando pelo de Leda. Por isso a vimos, sem atinar, muito íntima daquele cisne por um período. Minha louca irmãzinha...(risos). (Lucia Welt)




(sem data)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Gratidão -Ode ao meu corpo (de Alma Welt)


Alma- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x60cm, coleção Flávio Pacheco, São Paulo.


Pelas lindas manhãs em que renasço
Como Vênus da espuma entre os lençóis,
Longe da velhice o arregaço
E seus cataplasmas e urinóis,

Pelas pétalas macias desta vulva
E o botão rosado de meu ânus
Que dou a chupar como uma uva
E perfeito continua pelos anos;

Pelos bicos frementes de carícias
Dos meus seios como lírios de brancura
E aréolas que são como primícias

Dos prazeres que dou a quem procura
E mergulha e volta com malícias,
Eu te agradeço, ó corpo, ó formosura!

(Sem data)

Nota
Acabo de encontrar este belo soneto que classifiquei entre os eróticos da Alma, e que celebram os dons de beleza corporal de que a poetisa era pródiga. Em verdade, para quem a conheceu, estes versos não seriam de espantar, pois a formosura da grande poetisa era tanta, que seria mesmo uma hipocrisia de sua parte se ela não a celebrasse cheia de gratidão como o faz aqui neste soneto e alhures em sua vasta obra erótica ou não.(Lucia Welt)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A régia boda (Alma Welt)

Venha por aqui, ó meu irmão,
Que quero te mostrar o que encontrei.
Vê, ali embaixo, um alçapão
Com a marca de um brazão de rei?

Levanta, isso! eu te ajudo!
Bah! O que é isso, não acredito!
Fecha, depressa, cobre tudo!
Esta noite voltarás escondidito

E eu te esperarei, lanterna acesa,
Nuínha, para me cobrires toda
De ouro, como fora uma princesa.

E então, te prometo, me terás
E será como numa régia boda,
Mesmo que, como sempre, por de trás...

(sem data)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O eterno retorno (de Alma Welt)

Contarei e contarei até o fim
Dos meus dias como vou ao meu irmão
Encontrá-lo alta noite no seu sótão
Para entregar-me a ele e ele a mim.

E como, tateando no escuro
Nos longos corredores, já ardente,
Eu me dispo no caminho, de repente
Naquele impulso claro e obscuro

Que me leva assim a dar-me e dar-me
E exausta adormecer sobre seu ombro
Depois de tanto cavalgar a sua carne.

E como, adormecida, recomponho
A clara roda de ir ao seu encontro
Na obscura clareza do meu sonho.

(sem data)
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El eterno retorno (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


Cantaré y cantaré hasta el fin nuestro
Como voy tan repetido al mi hermano
Encontrarlo, alta noche, en su sótano
Para entregarme a ello, por supuesto.

Y como, palpando el aire oscuro
De los corredores onde, ardiente,
Me desnudo en el camino, de repente
En un raro impulso claro y puro

Que me lleva así a darme y darme
Y exhausta dormir con ello adentro
Después de cabalgar tanto su carne

Y como recompongo el diseño
De la rueda de irme al su encuentro
En la oscura claridad de nuestro sueño.

sábado, 9 de agosto de 2008

Na palha do celeiro (de Alma Welt)

Ponha a mão no meu seio, ó meu irmão!
Vê como bate comovido e acelerado!
Assim se pôs em mim com o encontrão
Que tivemos neste escuro inesperado.

As luzes vão decerto demorar
Com essa tempestade que há lá fora.
Aproveitemos e vamos nos deitar
Nesta palha que a mãe tanto deplora.

Deixa eu pôr a mão aqui em baixo
E libertar teu passarinho engaiolado.
No escuro eu cuido dele e o encaixo

Na conchinha que é seu ninho verdadeiro
Conquanto vai e vem (está assustado!)
Antes que as luzes voltem no celeiro...

(sem data)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ao espelho (de Alma Welt)

Se começo a perceber-me tão sozinha,
Recordando o meu Vati (ah! como dói),
Com perigo de sentir-me pobrezinha,
Então algo em mim me reconstrói.

É quando começo a desnudar-me
Arrancando-me a roupa com furor,
E passo a realmente olhar-me
E meu ego finalmente recompor.

E logo erotisada e aberta assim,
Eu vejo que guria ainda eu soube
Que meu corpo era o reflexo de mim.

E eis-me triunfante frente ao espelho
Na glória da beleza que me coube
Em alvura e detalhes de vermelho!

09/05/2004

domingo, 27 de julho de 2008

A Alma destas àguas (de Alma Welt)

A trilha que leva à minha cascata,
A cantar percorro todo dia,
Descalça, pois retiro a alpargata
Para sentir do solo a energia.

E logo vou a blusa retirando
Ou o vestido inteiro, se é o caso,
Depois a calcinha ali deixando
Na senda como rastro e ao acaso

De belas tramas um tanto obsoletas
Pois me dou à transparência destas àguas
(que nunca me escondi em vãs anáguas).

Depois saio brilhando, nada feia...
E mais: para atrair as borboletas,
Me agacho crua a urinar sobre a areia.

(sem data)

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Nota

Encantada, acabo de descobrir na arca da Alma este soneto lindo, ligeiramente erótico, que revela algo que eu mesma testemunhei algumas vezes: nua, Alma urinava na areia da prainha da cascata, e logo ali se fazia uma revoada de borboletas que apreciavam o sal ou a amônia onde pousavam numerosas, sugando, para encanto de minha bela irmã, que eu ficava olhando, admirando, como uma ninfa que ela realmente era. (Lucia Welt)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Palavras ao Vati (de Alma Welt)

Dá-me teu colo, Vati, estou carente,
A Mutti acaba de afastar-me.
Eu sei, ela me acha delinqüente,
Somente tu, ó Vati, sabe amar-me.

Ela diz que me espevito ao ver "um macho",
Tu ou Rôdo, dia e noite, e sem que
Jamais, ela diz, "sossegue o facho"
Mesmo servida a minha quota de rebenque.

Mas, pai, foste tu que me criaste
E me disseste pra ser sempre verdadeira,
Que minha pele já propunha esse contraste

Com, do falso a escura face, escondida,
E que jamais porias na coleira
O ser que iluminou a tua vida!


06/11/2006

terça-feira, 22 de julho de 2008

Lembranças do relho (de Alma Welt)

Vai, meu irmão, e abre a porta
Da cozinha pois estou muito molhada,
Minha calcinha está toda manchada
E se a Mutti vê, me deixa morta

De tanto me lanhar com aquele relho
Que eu mesma descobri na grande arca
E que é herança do nosso patriarca
Que o herdou de outro ainda mais velho.

Mas cá estou eu, de novo, a divagar...
Vai, Rôdo, pois, mas vai depressa
Que já começo sem querer a tiritar

E a troca que até me tenta um tanto
É, como tu, ir pela frente sem que meça,
Pois algo em mim anseia por meu pranto.


27/05/2006

A leitoinha (de Alma Welt)

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar.
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E nos braços me tomavas com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

Perdidos amores (de Alma Welt)




Perdidos amores vão clamando
Na solidão de minhas noites desoladas
Embora ricamente decoradas
Com as recordações e seu comando

Que me obriga a sangrar no meu colchão,
Pois eis como interpreto esse mistério
De viver um tal verão sem refrigério
Que alguns diriam só menstruação.

Então afundo os dedos dentro em mim
Para acalmar a ânsia e os ardores
De um desejo que parece não ter fim.

E logo em verdadeira apoteose
Sinto sangrar de mim os meus amores
Fazendo que em meus tristes dedos goze...


08/04/2006

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Vamos à cascata (de Alma Welt)

Vamos à cascata, meu irmão!
Ali poderás me ver pelada
Já que a Mutti vigia o casarão
E não nos permite quase nada.

Ontem um abraço separou-nos,
E por um beijo recebi uma tapona.
Ao observar os nossos sonos
Descobriu-me para olhar a minha cona,

E ao ver que estava assim molhada
Esperou o amanhecer pelo ensejo
De punir com o relho esta safada.

Ah! Meu Rôdo, ela não sabe
Que assim aumenta-me o desejo,
Que na pele desta Alma já não cabe...

26/04/2005

terça-feira, 8 de julho de 2008

Eros e Psiquê (de Alma Welt)

Quando de noite o coração dispara
E me ponho, ali, deliqüescente,
Levanto-me do leito, a fronte quente
E lá vou eu a tremer como uma vara,

Tateando no corredor escuro
Até aquela porta iluminada
Somente pela fresta ou encostada
Para que eu a empurre sem apuro.

Então o vejo como Eros no seu leito,
Belo e nu, se no verão, em abandono,
De lado, adormecido, e muito ao jeito.

E enquanto mija em mim como bebê,
Por trás conduzido em pleno sono,
Eu adormeço como a doce Psiquê...

(sem data)

domingo, 6 de julho de 2008

Desejo (de Alma Welt)

Em meio a noite desperto entre desejos
O peito arfante, a mão no seio trêmulo,
A outra ali em baixo, não por pejos,
Mas a conter em mim aquele êmulo

Que vibra no triângulo entre as coxas
Parecendo lembrar ter própria a vida
A me levar para além das minhas colchas
A outros maus lençóis, despercebida.

E quando dou por mim, estou metida
A grudar-me em seu traseiro, deslambida,
No leito do irmão no quarto ao lado.

E então desato a fonte, não da uretra
Enquanto ele se vira e me penetra
Entre suspiros e um gemido descarado!

08/04/2005

domingo, 29 de junho de 2008

Sonhos (de Alma Welt)


"El sueño de la razón produces monstruos" (Goya)


Meu corpo traz em sua memória
O toque e as carícias dos amados,
Homens e mulheres, e a história
Dos murmúrios e silêncios encontrados.

E assim, abandono-me no sonho
Carregada de vívidas lembranças
Como arquivo vivo que disponho
Para os dias de menos esperanças.

Eis porque acordo perturbada,
Menos por carência e mais paixão,
Por vezes uma ânsia exasperada,

E erguendo-me da noite na calada
Vou ao seu leito, em sonho da razão,*
Insinuar-me nua, assim, colada...


(sem data)

Nota

O fato de Alma ter colocado como epígrafe a famosa frase encontrada numa gravura de Goya da série Caprichos denota a consciência plena de sua relação proibida, já bem conhecida de seus leitores. Todavia sempre achei que a beleza lírica que ela punha na abordagem dessa relação, a fazia transcendente, a justificava e absolvia. (Lucia Welt)

sexta-feira, 14 de março de 2008

A bela adormecida do bosque (de Alma Welt)

Eu vinha pelos meus prados de ouro
De volta ao casarão para o almoço
Quando fui barrada por um touro
Que me pôs o coração em alvoroço.

Parei estarrecida e não sabia
Se assim ficava ou se corria
Quando Rodo a cavalo apareceu
E a galope a cintura me colheu.

"Meu herói!" gritei, e de imediato
Fingi desmaiar na sua sela
Para melhor sentir o seu contato

Então ouvi, ou assim me pareceu:
"Ao bosque vou levar-te, minha Bela,
Onde a princesa nua adormeceu..."

04/12/2006

sábado, 1 de março de 2008

O pingo no i (de Alma Welt)


O pingo no i- Tela a óleo de 100x120cm, de 2007 de Alma Welt


Nas sombras sagradas do jardim
Eu deitei, guria, inebriada
Sob uma sebe florida de jasmim
E levantei o vestido, já molhada.

Tirei a calcinha, aspirei-a
E comecei a gemer chamando Rôdo
Que não me achava nada feia
E que uma vez dissera "eu fodo",

Palavra que confesso me chocou
Mas que mudou minha visão
Pois colocara o pingo onde faltou:

No i, no amor, na vida na verdade,
E em seguida ali em meu botão
Quando conheci a liberdade...

18/01/2007

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

De guris e aero-modelos (de Alma Welt)

Amor meu, irmãozinho adorado,
Deixa-me ficar aqui no sótão,
Quietinha assim, bem do teu lado
Enquanto constróis teu avião.

Quando cresceres serás um bom piloto
Ou então um mágico de cartas,
Pois com habilidades de canhoto
Nunca de teus truques tu me fartas.

Mas deixa que eu pegue teu pintinho
Enquanto trabalhas com desvelo
Pois que quero ver se está molinho...

Bah! Já não está mais, não pares não!
Que lindo, enquanto colas o modêlo
Teu passarinho cresce em minha mão!

O intruso (de Alma Welt)

Esta noite acordei toda suada
(e nem sequer estamos no verão)
Com a impressão de devassada,
Toda aberta ali no meu colchão.

Colocando a mão na minha pombinha
Por instinto feminino, ai de mim!
Percebi que ela estava molhadinha,
Que digo? Ensopada, isso sim!

E ao levar os dedos às narinas
Senti um odor assaz estranho
Certamente nada próprio das meninas.

Dei-me conta de que fora visitada
Por algo que injetou-me certo ranho
E no lençol uma nódoa encarnada...


25/06/2006

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Nota da editora

Alma se refere neste soneto a um episódio real acontecido na sua adolescência. Minha irmã tinha o hábito de dormir nua apesar de todas as recomendações da Matilde. Por sua enorme beleza tentadora teria sido estuprada enquanto dormia? Rôdo, o principal suspeito, nega até hoje. Alma que tinha hímem complacente, nesta noite o teve completamente rompido, daí o sangue no lençol. Ficamos extremamente preocupados com uma possível gravidez, que milagrosamente não aconteceu. (Lucia Welt)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Dias há... (de Alma Welt)

Dias há em que não caibo em minha pele
E preciso correr como uma louca
Arrancando-me as roupas e a touca
E não podendo suportar que alguém me rele.

Rolo pelo chão, alguém me ajude!
Mas não me toquem, não me posso controlar,
Mas eu peço: não peçam que eu mude,
É necessário apenas me amarrar.

Depois não parem, eu ali, de me olhar
E deixem-me assim por uma hora,
Somente isso irá me apaziguar.

E no final, se me virem ensopada
Escorrendo pelas pernas como agora,
Por mais um mês ficarei bem comportada.

16/10/2006

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Nota da editora

Hesitei bastante em publicar este soneto revelador, mas tendo consultado a respeito a doutora Jensen, essa foi do parecer de que, como a Alma era uma escritora confessional, que não escondia nada e fazia em seu pensamento e cotidiano, de tudo e até de suas mazelas a matéria de sua arte, e que isso era parte inerente de sua personalidade artística, seria uma traição escamotear este soneto, embora ele exponha a doença da minha irmã. Alma tinha PMD* (hoje se diz "transtorno-bipolar") e no seu polo eufórico tinha características de ninfomania ou histeria erótica. Mas tanto eu como Rodo e a doutora estamos convencidos de que nada disso diminui a sua grandeza literária, constituindo, ao contrário, o seu "pathos anímico" ou o que já se denomina o "caso Alma Welt". (Lucia Welt)

* PMD - Psicose maníaco-depressiva.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A Giuseppe

3
Tu foste, Giuseppe, quem um dia,
Ou melhor, uma noite me tombou
Sobre a mesa de jantar e sobre a pia
Na cosinha para a qual me convidou.

Era eu inexperiente e amorosa,
Mal chegada do sul com meus recatos,
Sentaste-me sobre a mesa generosa
A pretexto de tirar-me os sapatos...

E fui teu manjar branco, tua delícia,
Como disseste então com tua malícia,
A toalha para um lado arrepanhando.

Pratos, copos, vinho, o chão manchado,
O castiçal com a vela acesa iluminando
O estupro a tanto tempo acalentado!


06/04/2001

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Sonetos da Alma (de Alma Welt )


óleo s/tela de Guilherme de Faria, de 60x80cm, coleção do autor.


(Alguns sonetos eróticos selecionados dos "Sonetos da Alma" cuja série completa, de 21 sonetos pode se lida no blog de mesmo nome (ver links)


Dos "Sonetos da Alma" de Alma Welt

4

Espero, assim deitada, o meu amor
Fingindo-me um pouco adormecida
Estou nua, estou bela, e comovida
E o prazer da espera ainda é maior

Pois que os segundos, minutos, talvez hora
Que levará pra sua descoberta
Aumenta o meu prazer com sua demora
E põe a minha pele mais desperta

Sinto correr o mel sobre a coberta
Da cama, pois me encontro sobre ela
Nesta suave angústia que me aperta

De ficar assim, me imaginando
Surpreendida nua em pose bela,
Voyeuse, a mim mesma me ofertando.



6

Escolho uma modelo de atelier
Sob o critério de que possa vir a amar
Bela e fresca como um fruto no pomar
Que a mão colhe, pois não pode se conter.

E agora eu me pego a esperar
Sua chegada, já um tanto ansiosa
Caí na armadilha cor de rosa
Que armei, para mim, sem atinar.

Vem, Aline, e toca minha sineta
Entra, tira o jeans e a camiseta,
Depois o teu sutiã e a calcinha

E nua, com teu porte de rainha,
Te põe diante de mim com minha paleta
Enquanto o coração pra ti caminha.



7

Vem pros meus braços, amor, não tenho ciúme
Necessito o teu calor e o teu cheiro
Não te banhes, não mudes teu perfume
Quero-te suja, possuída por inteiro.

Está bem que ames teu homem e dele sejas
Mas meu desejo é um tanto diferente
Não poderás deixar-me, de repente,
Pois que já te fisguei, e me desejas.

Quanta riqueza de luxúria neste ninho,
Perdida em teu caminho e tu no meu
Com todo um universo de carinho

Com que passei a amar-te loucamente,
Para além desse desejo, que era teu,
De olhar-te como musa, simplesmente.



8

Estou exausta, amor, de amar-te tanto
A noite toda mordisquei os teus pelinhos
Lambi-te como gata aos filhotinhos
Estás molhada de saliva, e não de pranto.

Tenho teu cheiro impregnado nas narinas
Me sinto viciada em endorfinas
Se me deixares, meu amor, com tua ausência
A síndrome terei, de abstinência.

Mas mesmo assim, amor, quero ir além
Entrar dentro de ti, e ficar bem
Sob tua pele, ouvindo a alma

No seu lento respirar, que então me acalma,
Fazendo o coração bater também
Com a cadência que do teu, assim, me vem.




9

Olha, Aline, o quanto te desejo:
Enquanto dormias bela e nua
Pintei-nos num retrato, qual nos vejo,
Para provar-te que, pintora, ainda sou tua.

Vieste, por modelo, contratada
Um dia adentrando o meu estúdio
Deixastes ser por mim manipulada
Sem apresentar qualquer repúdio.

Agora aqui nos vemos, assim, nuas
Diante uma da outra. Qual a autora?
Que já não nos sabemos como duas.

Sou eu que pinto aqui, ou sou modelo?
Quem somos nós? Qual a pintora
Que fixou na tela as criaturas?


10

Hoje abro espaço nesta sala
De telas, cavaletes, sempre cheia
Para bailar cantar, como no Scala
Mas sem palco, sem coxia e sem platéia

Aline, serás minha parceira
Faremos “pas de deux” em nossa dança
Depois riremos aplaudindo a brincadeira
Estou feliz demais, como criança

Como é belo assim nos namorarmos
Como é mais belo ainda estar amando
A ponto de nos ver assim dançando

Sem do ridículo ao menos cogitarmos
E depois coradas e suando
Sugarmos nossos lábios, ofegando.



15

Ontem fizeste, Aline, uma proeza
No meu corpo, a ponto de eu corar:
Enfiaste-me teu punho com firmeza
Como se quisesses me estuprar.

Me retorci em volta do teu braço
Como uma chama em meio a ventanias.
Quando quiseste retirá-lo não podias,
Eu te retinha como agora às vezes faço.

Senti a tua mão dentro de mim
Como um parto às avessas, devassando,
Tateando-me por dentro, assim, assim,

Sentindo-lhe os dedos que se movem
Depois quando a retiras deslizando
Os rumores de água me comovem.


19

Volto ao estúdio querido, nos Jardins
Sentindo esta alma velha renascer.
Quero pintar, quem sabe escrever
Sonetos mais felizes, poemas infantis.

Quando me sentir recuperada,
Vou me vingar de mim, como Aretino
Escrevendo luxúria de enxurrada,
Porno-sonetos como aquele bom cretino.

Hei de estar curtida pelas dores
Causadas pela entrega aos meus amores
Pois foram tantos assim acumulados,

Perdidos, recalcados, na certa se somaram
A dor desta paixão tão cheia de cuidados
Por uma jovem que os ventos me levaram.



21

Vida, Amor, amores, Arte e alegrias
Graças demais pr’um simples ser mortal
Humor, humores, gozo, enlevo sensual
Eros, Psiquê e suas maravilhas

E há quem erga a sua voz blasfema
Contra a Vida e seu amor, e quer conter-ma!
Há quem faça dela uma vigília enferma
Aos dons da própria Vida, e a ela tema.

Mas não penso neles, não agora:
Eu vi o Hades, renasci faz uma hora,
Não renego da minha vida um só minuto.

Amei, tudo apostei, perdi, pus-me de luto
(que em mim morri), voltei, torno a postar
Nesta roleta russa que é amar!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

As Quatro Estações (de Alma Welt)


O Pranto de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 60x80cm, coleção particular, São Paulo

"Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?"

"Ou quedo-me, chorando-me, deitada."



As Quatro Estações

Prólogo
1

No círculo perfeito de minha vida
Me insiro eqüidistante como um raio
E vejo minha ação distribuída
Ponto a ponto, em seu sentido horário.

E posso contemplar os meus acertos
E erros que também fazem sentido
Ao produzirem seus breves apertos
No arco do meu ser, assim contido.

A alma, carregada de figuras
Concentra minha história nas minúcias
Que me contam mais que iluminuras.

Secreto, mas audível qual canção,
É esse código desfeito por argúcias,
Que a melodia desvela ao coração.


Primavera
2

Desperta o meu amor na minha pele
Após o longo inverno de torpor.
Andei aí, por onde a dor impele,
Em sendas áridas, sem cor.

Sinto agora nas faces o rubor
E minha pele alva desmaiada
Deixa aparecer a sua cor
Qual alabastro, por dentro iluminada.

O coração, hibernado, que se aquece
Levanta, farejando, de sua toca,
Onde só a memória permanece

E tece, (enquanto, alegre, saio à caça),
Com seu pé pondo a girar a sua roca,
E o fuso puxa o fio, que não se esgarça.


2° Soneto de Primavera
3

Flores e crianças, verdes praças,
Eu vejo na cidade cimentada,
E a copa novamente iluminada
Das árvores, através destas vidraças.

Por janelas amplas do atelier,
A vida entra e sai abençoada
Enquanto me ajoelho a agradecer
Sua dádiva que vejo renovada.

Sinto que o dom deste meu ser,
Além da bela vida a mim doada,
É vivê-la, assim, sacralizada,

Num cântico perpétuo e fiel
À arte, ao amor, e ao prazer,
Rio d’alma, fluindo como mel.


3° Soneto de Primavera
4

Encontrei o meu amor, sempre o primeiro,
Esmaecendo os outros na memória.
Primavera faz jus à sua glória
E deixa florescer um espinheiro,

Não que o tenha em minha alma
(que não guardo nenhum ressentimento ):
Estendo minhas mãos e abro a palma,
Vazia, sem sequer um ferimento,

Pronta pra colher as novas flores
Cravos, rosas, e com elas suas dores
Que aceitarei, sendo tão belas...

E estando assim aberta para a vida
Percebo minha alma decidida,
Voando através destas janelas.


Verão
5

Estou nua, transpirando nos teus braços
E a volúpia do suor da nossa pele
Ressuma qual perfume nos abraços
Melados, que o corpo não repele.

Meus seios achatados por teu peito
Mamilos titilando que se aquecem,
Amplexo de ouro, tão estreito,
Que os pelos se confundem e entretecem.

Singrando em mim como uma nau
(que só não usarei a sua rima... )
Eu o sinto enorme, entrando assim.

Quero-te pois, pra sempre, em cima,
Na frente ou atrás( não levo a mal)
Enquanto navegares dentro, em mim.


2° Soneto de Verão
6

Amor meu, que belo este verão
Aquecendo a alma sob a carne,
Deixando mais clara a minha visão
Do imenso privilégio de assim dar-me!

Quero estar nua, para ti, assim inteira,
Podes apalpar-me se quiseres,
Sempre que assim quente estiveres,
Que não me furtarei a quem me queira...

Quero dizer, a ti, não leve a mal,
Que só ao meu amado dou-me assim,
Como uma fêmea, lúbrica, animal.

E se então souberes dar valor
A essa doação tão pura em mim,
Sentirás do meu verão todo o rubor..


3° Soneto de Verão
7

Dei-me este verão, o tempo inteiro
Vivendo a minha carne como festa
Enquanto Amor tornou-se fera, sorrateiro,
Emboscado na alma, qual floresta.

Em pé, sentada, nua ou mal coberta
Reinei neste ateliê como ninfeta,
Provocando o meu amor, como em oferta,
Aos olhos treinados de um esteta.

Então, tomando, enfim, minha paleta
Hesito entre o papel e a tela lisa,
Se bacante, pintora ou poetisa.

Mas percebo-lhe o olhar devorador,
Do sátiro cruel, que mobiliza
Um desejo maior que o próprio amor.


Outono
8

O homem que me amou todo o verão
Perdeu-se em seu desejo tão crescente
Que ao findar a quente estação
Mudou o seu tono, de repente.

Foi numa tarde fria, decadente...
Lançou-se em fúria de desejo sobre mim
E feriu-me com aquela lança ardente
Na frente e atrás, num vai-e-vem sem fim.

Mas se eu vivia só pra dar-me assim
Suave, alegre, até arrebatada,
Mas sempre sob o olhar de um querubim!

Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?


2° Soneto de Outono
9

Meu amor adoeceu dentro de mim
E dói-me o corpo, como a alma maltratada.
Ando pela casa, sem um fim
Ou quedo-me, chorando-me, deitada.

Expulsei o malfazejo do ateliê,
Embora ele se tenha arrependido...
Pois quem a fera oculta um dia vê,
Perde a inocência e está perdido.

Sinto-me, portanto, injustiçada
E as partes, que me doem, não consentem
Que esqueça, no que sou tão esforçada.

O telefone toca, e não atendo.
O inverno minhas horas já pressentem,
Resvalando como folhas, vão morrendo...


3° Soneto de Outono
10

O frio deste outono é bem maior
Que o inverno que minh’ alma agora almeja
O sussurrar do coração, que sei de cor,
Fala só do amor que ele deseja...

Mas tento tapar os meus ouvidos
Para que não ouça a tentação.
Como das sereias os gemidos,
Essas súplicas que vêm do coração

Cercam-me detendo a embarcação,
De minha vida empenhada no seu rumo,
Com seu mastro nu, mas tão a prumo,

Onde, amarrada, me seguro
Pra ouvir sem mais perigo essa canção
Que já me fez passar por tanto apuro.


Inverno

11

É chegada a estação meditativa,
Onde a alma se pode recolher,
e sinto-a propícia e curativa
Deixando o coração me comover,

Acolho-o, quente, em meu regaço
Como um urso na toca, a ressonar,
Depois de tanto estardalhaço
Daquele verão nada exemplar,

E também de um outono desolado
Em cujo ouro tingido de vermelho
Eu vi meu coração despedaçado.

Quero esquecer, dormir o meu inverno
Sonhando minha vida num espelho
Da urna de cristal onde eu hiberno.


2° Soneto de Inverno
12

Encontrei alguém no elevador
Que aqueceu meu coração em um segundo:
Um sorriso, um olhar, talvez um mundo,
Naquele espaço, em geral constrangedor.

Um homem, um rapaz, já não tão jovem,
Seguro, pelo olhar, mas que doçura!
Sei que posso confiar, pois quando escorrem
Os olhos não cometem impostura.

Deixou-me seu cartão, pra meu espanto
Morador do mesmo prédio, pouco acima
Dois ou três andares, se tanto,

Na verdade, três, melhor dizendo,
O que na minha vida sempre rima,
Enquanto novas flores vou colhendo.


3° Soneto de Inverno
13

Preparo uma ceia no ateliê:
Um fondue de queijo e vinho tinto,
Para o meu vizinho, já se vê,
A quem interfonei, por puro instinto...

Um candelabro “glabro” sobre a mesa
(só para lembrar Jorge de Lima )
Uma rosa colocada muito tesa
Num copo de cristal, e tudo em cima.

Espero não ficar muito ostensiva
Nas segundas intenções, e nem xereta
Tornando-me eufórica, invasiva.

Mas não, pois quando toca minha sineta
Meu coração dispara, qual donzela,
Com rubor e timidez como seqüela!


Epílogo
14

Acordo feliz neste meu leito
Com cheiro de lavanda ou velva, eu acho,
Da pele de um homem enfim eleito,
Que reconciliou-me com o macho.

Não entrarei em detalhes por agora,
Só adiantando, incorrigível, a alegria
Em que desperto, repleta, como a aurora
Que já nasce em plenitude sobre o dia.

O amor é uma criança e com candura,
Me quer assim, também meio naïve
Como em festa de primeira formatura...

Assim, eu comemoro o amor que tive,
Compartilhando com vocês, ó meus leitores,
A ciranda geral dos meus amores!_

____________________

Outubro de 2001

sábado, 8 de setembro de 2007


"No círculo perfeito de minha vida... " -Desenho de Guilherme de Faria para a capa do folheto "As Quatro Estações", de Alma Welt

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Alquimia no Sótão (de Alma Welt)


Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, a pincel, nanquin e aquarela, sobre papel Shöeller montado, de 51x74cm -coleção do autor.

(132)

Pelo escuro corredor do casarão
De noite quantas vezes tateei
Cega e nua, para alcançar o sótão
Pela escada em caracol, que nunca errei

Pois o cheiro do desejo me atraía
De meu irmão adorado e tão viril
Que me esperava com o coração a mil
E o mastro que já quase se esvaía

Com aquele mel claro a escorrer
Semelhante ao que eu mesma destilava
E que gemendo com o dele misturava.

E então, naquela doce alquimia
Produzíamos prodígios e poesia
Pela noite, até o dia alvorecer...

05/01/2007

Questão de métrica (de Alma Welt)

(131)

Amor meu, esta noite venha a mim
No quarto,deixarei a porta aberta,
Entrarás qual sorrateiro serafim
Sem asas, e sob a minha coberta

Por trás de mim te porás também pelado
Que estarei adormecida mas de lado
E poderás entrar sem mais convites
Desde que a porta errada tu evites,

Se não perderei minh'auto-estima
Com grito semelhante ao de quem goza
E que porá o casarão em polvorosa,

Pois isso aconteceu um outro dia
Com um poeta que errou métrica e rima
Entrando pelos fundos da poesia.

11/09/2006

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A cadela (de Alma Welt)

(130)

Às vezes acho que sou uma cadela
Pois não consigo me conter
E penso em dar e dar até morrer
Ou então voltar para a costela,

Pois meu corpo lindo só foi feito
Para o sexo e o amor, e insatisfeito
Precisa pelo outro ser olhado,
E com volúpia tocado, penetrado.

E assim, eu me debato no meu leito,
E logo nua, colocando-me de jeito
A ser assim, pelos fundos, descoberta

Por alguém que vendo a porta aberta
Não resistisse à minha pose "acidental"
E invadisse, por impulso, o meu quintal...

09/08/2006

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Alma Welt como bacante exausta (desenho de Guilherme de Faria)


Alma Welt como bacante exausta- Desenho de Guilherme de Faria, no acervo do Banco Central do Brasil.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Pobre Lucia (de Alma Welt)

Uma noite, após tomar meu caldo
Flagrei a meiga Lúcia sem malícia
No quarto ser fodida sem carícia
Pelo seu marido o vil Geraldo.

E vi a branca, linda bunda da guria
Ser estuprada por um pênis gigantesco
Que causava muchocho algo grotesco
Pois, de quatro, em dor ela gemia.

Eu quis entrar e bater nesse vilão
Que sujeitava a minha irmã à condição
De cadela toda noite havia anos...

Mas, o quê pude, depois de questioná-la?
Até hoje lembrar disso me abala:
Ajoelhei e beijei seu pobre ânus!

(Alma Welt)


Nota

Tudo isso é verdade, infelizmente, aconteceu mesmo, e foi nesse dia que começou a minha "reeducação" sexual pela Alma, e entrei numa fase maravilhosa de sexo com minha irmã, que me ensinou os seus segredos e me libertou. E lembrem que ela era mais nova do que eu!
É demasiado patético o episódio, e só o mostro aqui por curiosidade e para os leitores constatarem o grau de compaixão verdadeira de minha irmã, a divina Alma...
(Lucia Welt)

Sonho eleito (de Alma Welt)

(129)

Meus passados amores, imagino
Que ainda estão comigo e em paixão,
Mayra, Andrea, Vânia, Gino
Que tanto prazer ainda me dão!

Pois cada noite eu escolho o meu par
E conduzo o sonho até o gozo...
E como rende o enlace amoroso,
De mil ângulos a me fazer gozar!

Às vezes eu os junto no meu leito
E produzimos aquela grande orgia
Como só possível em fantasia,

E no final exausta e satisfeita,
Na confusão da cama já desfeita
Me entrego afinal ao sonho eleito.

09/07/2006

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Passando em revista (de Alma Welt)

(128)

Quisera repassar os meus amores
Em revista como uma generala
Picaresca, é claro, com tambores,
Continência, farda, toda em gala.

Mas eu os poria assim pelados,
Para lembrar de seus corpos amados
E da nossa louca incontinência
Que não conhecia resistência

E que era a marca escolhida
De nossa juventude desvairada
Que tudo apostava, de saída.

Ah! Como ainda gozo em recordar
Daquele ardente desejo a fisgada
E o rios que corriam para amar!

14/09/2006

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Origens de família (de Alma Welt)


Esta tela, de sua frase abstracionista, óleo s/ tela, de 2007, de 90x120cm, sem título, foi a última pintada pela Alma poucos dias antes de morrer.
(127)

Origens de Família (de Alma Welt)

A mim, pela avó Frida foi contado
Que a nossa estirpe era improvável,
Pois de um lado havia um condestável,
De outro um campônio do condado

Que na verdade era um filho do nobre
Mas espúrio pois nascido pelo rabo
E por isso fora dado como um nabo
A uma camponesa muito pobre.

E eu, que era guria, na inocência
Ficava imaginando aquele parto
Da estória picaresca, e não descarto

Possa estar nela a raíz do meu humor,
Mas mais provavelmente a retro-ardência
Que me faz querer sentir aquela dor.

01/12/2006

domingo, 26 de agosto de 2007

Violada (de Alma Welt)

(126)

Quando eu passeava na floresta
Com ares de pequena camponesa,
Atrás de cogumelo ou framboesa
Para voltar pra casa toda em festa

Não me dava conta do perigo,
Pois ali, uma tarde, o inimigo
Me imporia cruel violação
Sem que me coubesse reação

Senão chorar e impotente suplicar,
Desnudada e brutalmente penetrada,
Duplamente, aberta, conspurcada.

Depois fui encontrada a vagar
Louca, esfarrapada, a claudicar,
E a quem só restou ser internada.

6/01/2006

Nota da editora:

Fiquei imensamente chocada com este soneto, que a rigor não se encaixa no gênero erótico, por ser doloroso, patético e até constrangedor. Não sei se a Alma o poria aqui. Mas como ela tinha o hábito e a coragem de contar tudo, absolutamente tudo de sua vida em poesia, resolvi afinal publicá-lo. Quando o que ela contou aqui aconteceu, depois de a procurarmos para o almoço, pois estava atrazada, a encontramos no bosque, perdida, com o vestido em farrapos, os seios e as coxas expostos e arranhados, vagando naquelas condições, como se estivesse louca. Não falava coisa com coisa, e desolados e aflitos nós a pusemos no carro dirigido por Galdério e fomos interná-la numa clínica conhecida em Alegrete, onde ela chegou tão agitada que tiveram que lhe ministrar um "sossega leão" que a fez dormir por 24 horas. Diante dos vísíveis sinais de violência a médica e psiquiatra da clínica procedeu a exames íntimos em minha irmã que constataram o estupro. Essa médica era a querida doutora Jensen, que se tornaria nossa grande amiga. O estuprador, depois ficou provado, era o meu ex-marido, Geraldo, que sempre cobiçara Alma, e que se revelou um bandido e um assassino. Tudo foi contado depois pela Alma no seu romance A Herança. (Lucia Welt)

Debaixo da minha macieira (de Alma Welt)

(125)

Debaixo da minha macieira
Fui por meu irmão desvirginada
Embora quase assim de brincadeira
Como se a primeira vez não fosse nada.

Mas meu lindo sacaninha endiabrado
Quis conferir depois o outro lado
E me propôs brincar de cachorrinho
Para conhecer o outro furinho.

E foi então que fomos surprendidos,
No que chamou "incesto de Sodoma"
Pela Mutti, debaixo de um tapona,

E lembro que por um segundo ou mais
Apertei-o tanto ali por trás
Que ao lembrar nos pomos comovidos...

28/12/2006

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Alma Louca (de Alma Welt)

(124)

Acordei de noite em grandes ânsias
De desejo incontido e rebelado
Por um sonho nítido e melado
Que me pôs em fogo as reentrâncias

E então subi até a mansarda
E joguei-me nos braços do meu Rôdo,
Dizendo-lhe: "Sou eu que hoje fodo,
Põe-te ao meu comando e baixa a guarda!"

Então, molhada que já estava,
Sentei no seu colo e, empalada,
Subindo e descendo revesava

Minhas duas boquinhas sequiosas
Que o ordenhavam e punham ensopada
Sua parelha de prendas côr-de-rosas...

28/09/2006

Desafio (de Alma Welt)

(Para ser lido com sotaque luso (risos)(AW)

(123)

Quero esta noite ser fodida
Como uma cadela em pleno cio,
Me desculpe o leitor o desafio
Na primeira estrofe, de saída.

Então pense logo em minha concha
Do mais puro nácar já molhada
Pelo olhar da platéia ou peonada
Que sonha meter-me a deixar troncha,

Aberta, arrombadita e devassada,
Pra depois atirar-me escorraçada
Como uma cadela em plena rua...

E quando te afastares, meu leitor,
Logo quererás que eu seja tua
Novamente, para então "fazer amor".

24//05/2006

Eu e o Malho (de Alma Welt)

(122)

Uma vez meu irmãozinho me levou
Até a sua mansarda quase a muque,
Ele dizia que aprendera novo truque
E que eu gostaria desse show.

Antes não precisava tal pretexto
Pois eu não me fazia de rogada
Até o dia em que me pôs descadeirada
De tanto que me fez reler um texto

De quatro, pelada, no assoalho
Onde escrito em letras bem pequenas
(o que eu bem fizera a duras penas).

Mas, então, nesse dia me mostrou
Um vídeo pornô luso: "Eu e o Malho",
Que me fez rir o quanto me enrabou.

28/08/2006

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Alma Welt como deusa germânica (óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 60x50cm)

Peão Negro (de Alma Welt)

1

Havia um peão aqui na estância
Negro como a noite minuana,
Mas ardente e vivo como a infância,
E que era um pau pra qualquer xana.

Na verdade não, só para as tais,
Muito fundas e largas qual gamelas
Denunciando já por suas canelas
Suas bucetas que são como portais.

E justo esse portento me pegou
No bosque, quando, intruso, me flagrou
Pois agachada, em volúpia, eu urinava.

E jogando-me no solo, mas de quatro,
Meteu-me atrás a tora, sem um trato,
E também como portal me inaugurou...



2
Peão negro, retinto e azulado
Que ousaste esta Alma ter tocado
Não por minha brancura impossível
Mas por ser tua patroinha inacessível

Pulando o que seria um grande fosso
E tendo me encontrado vulnerável
A fazer um xixi muito agradável
No meio do bosque antes do almoço

Por trás me empurraste para o solo
E antes que eu pudesse levantar-me
Entraste até o fundo em minha carne

De uma maneira afoita e tão doída
Que tiveste de carregar-me ao colo
Logo após, como uma recém-parida.



3
Me levaste, peão negro, bosque a dentro
Já que eu não podia caminhar
Pois me acabaras de arrombar,
Por trás, do equilíbrio sem o centro.

E então, numa clareira mais ao fundo
Me puseste de quatro novamente
Para olhar o que deixaste imundo,
Rubro ralo vazando docemente.

Então, não resistindo reincidiste
E ficaste chafurdando com estrépito
Tirando e pondo o grande falo em riste

Até que, assim aberta e inundada
Deixaste-me ali, qual ser decrépito,
Nua e suja, em sangue... violada.



4
Voltei cambaleando ao casarão
A escorrer aquele caldo pelas pernas,
Esfarrapada e a sentir-me qual vulcão
Aberto, a vomitar brancos espermas.

E caindo de borco na varanda
Fui acudida pela pobre da Matilde
Me cobrindo de censuras como manda
O costume de sua casta humilde.

“Bah! Eis o que levas, ó guria,
Por seres assim não recatada
E saires por aí meio pelada!”

“Agora ficarás para titia
Pois não terás mais homem que te queira
Como noiva e mulher, selada, inteira!”



5
O peão negro que um dia me pegou
Queria me alargar mas não largar,
E eu não podia pelo prado mais andar
Sosinha, pois o pobre viciou.

E logo me fodia a toda hora
No bosque, na cascata e no galpão
Enterrando-me a sua imensa tora
Na frente e atrás sem mais perdão.

E assim eu já andava claudicando
Com as pernas muito abertas e sangrando
Como em dias de minha menstruação.

E meu pobre ânus... arrombado,
Já não segurava, o coitado,
A carga que era a sua obrigação.



6
E assim tornei-me escrava do peão
Negro como negra é a noite escura
Mas não com o amargor da escravidão
Mas com negros laivos de doçura

Pois que me agradava sujeitar-me
A todos os caprichos do seu charme
Negro como as negras brincadeiras
De ir comendo antes pelas beiras

Pois gostava de lamber seios e lábios,
Os de cima, os de baixo e o botão perto
Em que metia a língua em toques sábios

E logo abrindo bem a minha bunda
Até ver que me punha o cu aberto,
Mais gostando se me encontrava imunda.



7
Um dia novamente fui flagrada
Desta vez pelo negrinho seu irmão,
Quando este me viu sendo empalada
Pelo negro mastro do peão,

Justo no momento de esguichar
Dentro do meu ventre o creme branco
Não faltando nem o lance de mijar
Dentro do meu cu e aquele tranco

Com que retirava após cavar,
Num estalo e golpe súbito, conforme
A visão que queria desfrutar.

Desta vez foi o negrinho quem desfruta
A visão da fonte espúria e enorme,
A jorrar de mim como uma gruta.



8
Assim tornei-me a puta de um peão
Bah! Que doce me sentir assim tão puta
Sabendo que o machão que me desfruta
Era um solitário c'um irmão

E assim não iria alardear
Pois apenas o negrinho nos flagrara,
Exigira a sua parte e então calara
E agora eram dois a revezar.

E tanto agora os dois me disputavam
Que eu era uma cadela o tempo todo
A dar como uma puta que pagavam

Mas somente em visões oferecidas,
Um ao outro dizendo: “Agora eu fodo,
E tu ficas com as sobras recolhidas.”



9
Foi assim que no bosque me encontraram
Naquele dia, rasgada e a vagar
Delirante, os seios nus, que arranharam,
E minhas coxas de tanto me ralar,

Rodo e Galdério me agarraram
E me levaram a Alegrete pra internar,
O que só protestei quando chegaram
Dois negrões, desta vez pra me dopar.

Seminua, amarrada e sem Descartes
Acordei afinal muito obumbrada
E sendo examinada em minhas partes

Mais aberta, invadida, estuprada,
Agora por colheres e espéculos
Em sessões que pareciam durar séculos!



10
E depois o veredito: violada!
Bah! Que novidade, não sabia...
Esperava tão somente a rodada
Que cabia aos negrões que ali havia,

Que eram os enfermeiros e um vigia
E também um interno gigantesco
Com seu jeito de mostrar, meio grotesco,
O que no seu pijama nem cabia.

Mas, bah! com a chegada da doutora
Jensen, minha doce salvadora,
Retomei minha vida como gente,

Pois agora eu seria bem cuidada
Por dentro como ser inteligente
E por fora como filha muito amada...

FIM


Nota
Estarrecida encontrei recentemente este ciclo de sonetos da Alma, totalmente inédito e desconhecido, que afinal explica as razões de a termos encontrado em deplorável condição vagando no bosque, esfarrapada e cruelmente arranhada, quando então foi por nós internada numa Clínica em Alegrete, em Dezembro de 2005, onde foi diagnosticada como esquizofrênica e ninfomaníaca, o que me fez de saída desconfiar desses diagnósticos que me pareceram equivocados ou arcaicos, ultapassados. Alma ali, creio que por sua extraordinária beleza, também foi assediada por uma atendente ou secretária que fazia chantagem sexual com minha irmã para deixá-la usar o computador (descobri isso na correspondência da Alma com Andrea). Fica aqui o meu protesto. Até o momento do encontro desta escabrosa narrativa em sonetos, a que Alma, em vão (a meu ver) procura dar um tom humorístico, embora tenha logrado o tom erótico (reconheço) eu desconhecia as causas e os responsáveis pelo estado em que ela foi encontrada. É verdade que o médico que a examinou constatou estupros repetidos. É preciso que se diga que o "peão negro" e seu irmão foram despedidos por Rodo pouco depois da internação da Alma, mas Rodo nunca falou sobre o assunto comigo ou com ninguém e eu nem sequer dei importância àquelas demissões, nem relacionei os fatos. Pobre irmãzinha, se não fosse a abençoada doutora Jensen... (Lucia Welt)

Alma Welt


Desenho de Guilherme de Faria para o qual Alma posou em 2001 no seu ateliê em Sâo Paulo.

Nas estradas do meu Pampa (de Alma Welt)

(121)

Muito por meu Pampa já vaguei
Embora isto pareça pura prosa.
Foi quando da Clínica me esgueirei
Fugindo pr'uma estrada perigosa

Em que pouca gente boa se aventura
Mas em que pretendi tomar carona
Vestida como estava c'uma lona
De brim, como um saco, sem cintura.

O chinelo ao atirar na rodovia,
Acabei recolhida por primeiro
Por um que era um mau caminhoneiro

E que agarrou e abusou desta guria
Mas em quem dei "joelhaço" bem certeiro,
Quando a viola em cacos já se via...

29/12/2005
Nota da editora:

Neste estranho soneto, que seria doloroso e patético se não contivesse uma nota humorística típica dela, minha irmã espantosamente revela, se bem o entendo, que foi estuprada por um caminhoneiro, numa estrada em pleno pampa, ao tentar pegar uma primeira carona depois de fugir da clínica em que estava internada. Muito femininamente ela se refere a detalhes como o camisolão informe das internas, e as infames chinelas que eram obrigadas a usar e que ela atirou na pista ficando descalça. A beleza da Alma era perigosa para ela, e a fazia visada. Ela se referiu a este episódio de sua fuga numa das cartas a Andrea, com quem se correspondia na época, por e. mail. Na carta ela conta que deu um "murro na cara" do violador, o que acho menos provável que este "joelhaço", e que pulou da boléia e correu pela pista, até que o motorista, saltando também, deu um tiro para cima para assustá-la. Na carta a pobre Alma ainda conta que, de medo e susto fez xixi de pé, pelas pernas abaixo, e continuou andando e chorando pela estrada, ouvindo a gargalhada daquele vilão, que religou o caminhão e passou por ela, seguindo em frente. Essas peripécias da Alma e seus sofrimentos nos confrangiam, doíam muito, sem que pudéssemos protegê-la de si mesma e do mundo. (Lucia Welt)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Memórias do sótão (de Alma Welt)

(120)

De noite eu subia no seu quarto
Ouvindo do vazio aquele estalo.
Meu irmão fora exilado no Internato
Pois a Mutti decidira apartá-lo

De mim, que no seu catre de pinho,
No sótão solitário do ausente
Deitava encostando o narizinho
Para aurir nos lençóis seu corpo quente.

E então chorava muito, me lembrando
Dos seus lábios, do corpo e sua posse
Que de forma tão cruel me foi negada.

E adormecia então já bem molhada
Por estar nos seus lençóis e recordando
A glória de ser fêmea tão precoce...

15/01/2007

A vitela (de Alma Welt)

(119)

Entre minhas lembranças da infância
Está aquele dia inusitado
Em que no prado e à distância,
Fui laçada e derrubada feito gado

Pelo meu irmão que quis mostrar
Que havia aprendido a laçar:
Enroscada pelos pés me vi caída,
Nem assim querendo dar-me por vencida.

Mas com o laço amarrou-me bem veloz
As mãos como se fora uma vitela,
Levantando meu vestido até a costela,

E estando eu de quatro como rês
Rasgou-me a calcinha pelo cós...
Haja soneto pra contar o que ele fez!

03/09/2006

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Bucolismos (de Alma Welt)

(118)

Uma vez, guria, vi um touro
Cobrir uma vaquinha muito terna,
E percebi um sutil abrir de perna
Para facilitar aquele estouro

Que na verdade entrou como uma luva
E despejou um rio em sua entranha,
Enquanto eu me via um tanto estranha
A pensar em minha própria vulva

Que seria um dia adentrada
Como uma posta de carne devassada
E que era a feminina condição,

Sermos feitas pra isso, e espantoso:
Um belo e puro cálice carnoso
Para a crua e pertinaz penetração.

20/11/2006

domingo, 19 de agosto de 2007

Ardências (de Alma Welt)



(117)

Pelas sombras do bosque eu caminhava
Numa bela manhã de primavera
E logo, de repente, eu precisava
Agachar pro xixi como se espera

De guria em longa saia, até estranha,
Pois eu vira os guris nos seus concursos
De mijar mais longe, e sem recursos
Eu andara a experimentar essa façanha.

E foi quando um raminho de urtiga
Tocou minha rachinha e foi um custo
Pois que o ardor subiu pela barriga,

E hoje, já tão longe desses tempos,
Eu atribuo a essa ardência e o seu susto,
Meus desejos, aventuras, contratempos...

18/11/2006

sábado, 18 de agosto de 2007

Alma Welt, Grande Nu Germânico ( pintura de Guilherme de Faria)

Encomenda (de Alma Welt)

(116)

Penetre-me meu amor a minha fenda
Mas jaza calmo e quedo logo então
Para eu sentir a encomenda
Palpitando como um doce coração,

Em seguida ir vazando lentamente,
No sentido antigo mesmo, literal,
Para eu assim parir-te docemente
Com a baba qual cordão umbilical.

E então estando cheio de energia
E melado qual houveras explodido
Poderás penetrar-me o incomprendido,

Estreito botão róseo detratado,
Que tem a preferência do mercado
Sem que o reconheça a hipocrisia.

07/12/2006

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Eros e Psiqué


Desenho de Guilherme de Faria que ilustra a capa do livro "Contos da Alma", de Alma Welt, publicado pela Editora Palavras & Gestos, e à venda nas livrarias de São Paulo, bem como através da Internet.
A Psiqué do desenho é um retrato da Alma, para o qual ela posou para o artista.

O Estupro (de Alma Welt)

Estava eu chegando ao casarão
E avistava já nossa porteira
Quando por trás de mim veio o peão
E jogou-me de borco na poeira.

Rasgou brutalmente o meu vestido
E deixou-me esfarrapada e exposta
Me olhando com um olho pervertido
Como se carne eu fora... mera posta.

A entrar e sair enquanto olhava
Pardo caldo a brotar da cavidade,
Vulcãozinho a escorrer a sua lava,

Agora rubro o antes meu rosado anus
Que arrombou com seu pênis, sem piedade,
Sem saber que era dia dos meus anos...

A tentação da Alma (desenho de Guilherme de Faria)

O Pacto (de Alma Welt)

(115)

Pelos escuros corredores da mansão
Virás hoje de noite, eu bem sei,
Pois me olhaste, percebi, com intenção,
E tudo comprendi e... aceitei.

Entre presa e predador existe um pacto
Mudo, ancestral, perturbador.
Pois deixarei que me pegues com ardor
E me dês, como se diz, "aquele trato"

Que consiste em me usares e abusares,
Colocar-me em improváveis posições,
Devassares-me os mais íntimos rincões.

E eu deixarei, feliz, tu me melares,
Como fora minhas próprias oferendas
A escorrer de amor por minhas fendas...

05/01/2007

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Tramas da Noite (de Alma Welt, e desenho de Guilherme de Faria)


(114)

Esta noite deixarei a porta aberta,
Estarei nua a fingir estar dormindo:
É verão e não preciso de coberta,
Poderás observar meu corpo lindo.

Teu olhar eu sentirei, de olho fechado,
Sobre a minha anca contemplada,
Sobretudo a minha concha nacarada
Que exponho por estar meio de lado.

Fluindo como riozinho humilde
(mas que que somado ao creme masculino
dará muito trabalho pra a Matilde...)

Sob o fogo mesmo desse olhar
Deixarei a vulva abrir e desaguar
Lentamente o sumo cristalino...

14/12/2006

Profissão de Fé (de Alma Welt, e desenho de Guilherme de Faria)


(113)

Nestes tempos de profunda decadência,
De "cultura de massa", assim chamada,
Que não passa de anal incontinência
E de vil vulgaridade divulgada,

Eu continuo a resistir heroicamente
Buscando beleza e qualidade
Na arte e no erotismo propriamente,
Que nada tem a haver com sujidade...

E construo minha própria Renascença
Rejeitando só o tom de um Aretino*
Por achá-lo mau pornô e mui cretino.

Assim, quando repasso o itinerário
Percorrido, confirmo a minha crença
No valor do meu texto temerário.

19/12/2006

Notas da editora:

Sonetos como esse confirmam a lucidez da Alma a respeito de seus textos eróticos, que ela restaurou à categoria de grande Arte, por achar o gênero até então aviltado pela malícia masculina, fruto, segundo ela, da consciência infeliz herdada do cristianismo. Os poetas consagrados que se dedicaram ao gênero, como José Maria du Bocage (século XIX) e Pietro Aretino (século XVI), escreveram sonetos eróticos que na verdade eram meramente pornográficos, embora tecnicamente engenhosos. Apezar de grandes poetas, o que eles escreveram neste gênero, equivale ao mais baixo pornô do século XX, com aquela mesma visão machista, rebarbativa, e pejorativa do sexo, que se pode ver nos videos pornôs das locadoras do nosso tempo.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Juizos de guri (de Alma Welt)

(112)

Meu irmãozinho pediu-me pra agachar
E ficar de quatro sem calcinha,
Pois queria que queria me olhar
Por trás para ver minha pombinha

Do ângulo que parece um coração
E com que dizia ter sonhado,
E que assim permitiria a opção
De evitar o portão mais apertado.

Mas então ele me disse ser preciso
Trabalhar e cumprir dupla jornada
Pra fazer afinal um bom juizo.

Então, eu, paciente e encantada,
Pensei, duplamente experimentada:
"Meu guri sempre teve muito sizo..."

16/12/2006

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Quando guria... (de Alma Welt)

(111)

Quando guria eu vi nosso pampeiro
Imenso desdobrar-se mais escuro
Num relincho com um mastro semi-duro
Apontado contra o solo do terreiro,

E então diante do meu olhar pasmado
Despejou a sua carga sobre o chão
Num lago viscoso e perfumado
Enquanto eu sentia um comichão,

O primeiro talvez de que me lembro,
Pois bem vira onde tivera sua guarida
Aquele avantajado e negro membro

Porquanto ao segurá-lo qual mangueira
Galdério o enterrara na trazeira
Da minha pobre egüinha Margarida.

11/01/2007

sábado, 11 de agosto de 2007

A última vez (de Alma Welt)

(110)

Esperei-te além do meu limite,
Eu que mal o tenho, na verdade,
Dirigi-me ao teu quarto sem convite,
E meti-me no teu leito com vontade.

Estava eu nua e tu um pouco tonto:
O teu mastro somente semi-pronto,
Tive que pegá-lo com prazer
Para conduzí-lo ao seu dever.

Então, ao dares conta do ocorrido
Estavas de novo em tuas moradas
Tal como houveras prometido,

Criança, ao escolher estes dois ninhos
Nos recém-descobertos buraquinhos
Pra serem lar de nossas almas exiladas...*

15/01/2007

Nota da editora:

* Esta foi última vez que Alma esteve com Rôdo. Entre duas almas ardentes e tão simbióticas o incesto fora inevitável desde a infância, apezar dos esforços da Mutti para separá-los. Quanto a mim, sempre os compreendi e protegi como pude.
Eles foram feitos um para o outro, e seu amor, paixão mesmo, era tão grande que ninguém tinha o direito de intervir. Cheguei a pensar que Rôdo não sobreviveria à morte da Alma...

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sonetos da Infância da Alma (de Alma Welt)

(Como todos os ciclos de sonetos da Alma, estes devem ser lidos em seqüência e na ordem correta de numeração, pois assim produzem uma estória inteira, como uma pequena saga interior da autora).

Prólogo

Manhã de esperança, mar rosado,
Línguas douradas no azul nascente;
Assim vejo o arrebol sobre o telhado
Do casarão pousado à minha frente.

Aqui nasci para o amor, embora
Tenha sido parida numa estrada
Tal como narrei em boa hora
No meio de uma saga inusitada.

Mas esta casa-grande na cidade
Que ainda resta na família endividada,
Contém o sótão onde tanto fui amada

Lembra, Rôdo, amantes irmãozinhos,
Como era nosso amor na tenra idade,
Quando ali brincávamos nuzinhos?


2
Bem cedo procurei o meu irmão
Na mansarda da casa, o seu quartinho,
Pois a Mutti percebera o temporão
Desejo do precoce casalzinho.

De noite eu fugia do meu quarto
Que dividia com a Lúcia e a Solange.
Curioso: esta memória não constrange,
Amo recordar, e não descarto

Os lances detalhados na memória
Transformando meu desejo na estória
Que passo a revelar, ali, leitor

E assim eu cantarei o meu amor
Para que o mundo perceba enfim a glória
Do amor entre crianças sem pudor.



3
Me lembro da noite em que levanto
E deixo o meu leito como sombra
Enrolada num lençol como num manto
Escapando de Solange, a minha “Solombra”

E da outra, minha irmã meio apagada,
Lúcia com seu rosto pura sarda,
Dirigindo-me à escadinha da mansarda
Para encontrar Rôdo, e ser amada.

Subindo no escuro o caracol
Da escada de ferro, desnudada,
(eu já deixara no sopé o meu lençol),

E atrás de um biombo mau chinês
Deitar com meu guri, emocionada,
Para conhecer o que Deus fez.


4
Ai, Rôdo, que doce, que emoção
Quando a primeira vez me desnudaste
E puseste em minha conchinha a tua mão,
Abrindo-a para olhar o seu contraste,

Rosada contra a alvura circundante
Do meu corpo e dos lençóis onde eu pousava,
Que entre minhas coxas já molhava
Com o mel que produzia nesse instante.

E então colocaste o teu pintinho
Na pequena fenda, assim, quentinho,
E a missão de amor foi consumada

Quando sobre mim ficaste ali,
Dentro da irmãzinha tão amada
Fazendo, por instinto, teu xixi.



5
As noites de beleza e maravilha
Que desfrutávamos na pequena toca!
Até hoje emoções em mim provoca
Levando as sensações à minha virilha

Onde coloco a mão, impressionada
Com a persistência da memória
Que volta a deixar-me assim molhada
Só de recordar aquela estória:

Duas crianças tão precoces em se amar,
Em nossa descoberta do prazer
Não pudemos todavia esconder

Por muito tempo a paixão e nossos ritos,
Apesar de eu já estar levando pitos
Da Mutti, que iria nos flagrar.


6
Depois de alguns meses, já na estância,
Quando descobrimos o pomar,
Fizemos o altar da nossa infância
No tronco onde gravei o nosso AR

Na macieira que eu iria retocar
Com Aline, minha amada paulistana
(vinte anos para um A acrescentar
produzindo a ARA grega ou romana

à qual associei o meu destino).
Ali foi que, assim apaixonados,
Fomos pegos num minuto muito fino

Em que deitados nus, após instantes
Em que tivéramos os fluidos partilhados
E estávamos felizes... exultantes.



7
Estávamos, eu e o irmãozinho
Nus e adormecidos sob a fronde,
Eu com minha mão em seu pintinho,
Ele com a mão tu sabes onde.

Foi quando fomos despertados
Por um grito lancinante de horror
E pelos cabelos agarrados,
Levantados do chão, em susto e dor.

E arrastados fomos no caminho
Em lágrimas de dor e humilhação,
Rôdo com a mão no passarinho,

Eu, obrigada a cobrir a minha concha,
Arrastada pelo pulso, meio troncha,
Servindo de galhofa pra peão.



8
Não mais poderíamos juntar-nos
No nosso pomar, ah! nunca mais!
A Mutti decidira separar-nos
Por considerar-nos “anormais”

Enviando meu irmão pr’um internato
De onde voltaria só nas férias
De dois em dois anos, de fato,
“para só pensar em coisas sérias”.

E eu seria vigiada desde então,
Embora isso mais desenvolvesse
Meu poderoso dom de sedução

Para aliciar, e conseguir
Algo que afinal me resolvesse
A questão crucial de prosseguir.


9
Agora, tanto tempo já passado,
Tudo em seu lugar foi colocado;
Tenho meu irmão e minha amada,
E minha mãe há muito foi deixada

Na colina em sua mais triste manhã,
Onde estão também Joachim e Frida
Meus avós alemães, e a pobre irmã
Solange que lhes era parecida.

E que tanto atormentou a minha vida
No entanto produzindo novo rumo
No destino desta Alma perseguida.

Mas saibam que isto tudo é o resumo
E tudo foi purgado no caminho:
A vinha, o pomar, a ARA e o vinho.



Epílogo

10
Ah! amado Pampa, meu destino!
Nestas pradarias morrerei
Depois do toque, ao longe, do meu sino
Aquele que, na certa escutarei

Naquela derradeira cavalgada
Pelo mar das coxilhas navegando,
O cabelo ao vento, em disparada,
A mão de Rôdo no meu seio palpitando.

O Vati, Aline, eu e a infância
De Hans e Christian, Patrícia e Pedrinho
Correndo juntos, comigo, no caminho...

E a herança da safra em vinho tinto
Transfigurando em Éden, que pressinto
A beleza final da minha estância!

20/06/2006

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

No quarto de Alma Welt ( pintura de Guilherme de Faria)


Embora esta pintura (óleo s/tela, 60X50cm ) tenha sido pintada pelo mestre em 1967, portanto Alma ainda nem tinha nascido, Guilherme a enviou a mim, hoje, pois considera que seria uma antevisão da Alma, que ele encontraria somente em 2001, quando a procurou no ateliê que ela montou em São Paulo(por apenas três anos), e descobriu sua literatura, que o deslumbrou, a ponto de considerá-la sua poetisa predileta entre todas da literatura mundial, que por sinal ele conhece bem. Além disso Guilherme a considera sua última e definitiva Musa, e fez dela inúmeros retratos em pintura, desenho e gravura, para os quais Alma posou. O sofrimento do mestre com a morte da Alma, quase o matou. Agora ele se dedica às suas edições ilustradas por ele, e a pintar de memória novos quadros de minha irmã, sempre despida, pois ele diz que Alma Welt era "a mulher mais bela do mundo", e "uma alma nua".

domingo, 5 de agosto de 2007

Declaração (de Alma Welt)

Vem, amor, e ergue a minha saia.
Verás que nada tenho sobre mim
Senão esta pele que desmaia
E o meu próprio cheiro de jasmim.

Ah! Tenho essa penugem descorada,
Natural, meio gringa, te garanto...
Mas, olha minha conchinha nacarada
Que quando está alegre é como pranto.

Vê: não caibo de amor na minha pele
E meu corpo clama em polvorosa,
Cada curva feliz em que se rele.

Então me toma e farta-te de mim,
Para que eu floreça como a rosa
Com que me comparaste em meu jardim!

21/12/2006

Oferenda (de Alma Welt)

Esta noite vou dar e receber
As dádivas do amor que mereci.
Sou bela, estou nua e antevi
Teus passos antes mesmo de te ver.

Coloco-me de bruços, não! de quatro,
Como outrora as nossas ancestrais,
Oferecendo a colina para o mastro
E a visão de delícias desiguais.

Se vieres por trás, é uma fenda,
Por cima um botão também rosado,
Mas garanto-te, não faço a encomenda:

Não precisas ser precipitado,
Por qualquer dos dois que começares,
Paciente aguardarei tu revezares.

12/12/2006

Debaixo da minha macieira (II ) (de Alma Welt)

Debaixo da minha macieira
Por sagrada que é, fui desnudada.
Podia ver a guria nua inteira
Pela primeira vez a gurizada.

O bandinho luxurioso me seguia
E foram-me rasgando o vestidinho;
A calcinha resistiu, mas sucumbia
Quando eu já cobria ali e meu peitinho.

Então, nua, de repente abri os braços
Já que estava em cacos minha viola
E já sentia eu os meus mormaços,

Pois pensando refrescar aquele ardor
Que a alma dos guris tão cedo assola,
Urinei-me perna abaixo sem pudor...

sábado, 4 de agosto de 2007

A corça no paiol (de Alma Welt)

Quando guria de apenas doze anos
Estando de férias na fazenda
De uma tia que agora virou lenda,
Dei por primeira vez meu pobre ânus,

Não propriamente dado, com certeza,
Pois me foi tomado mesmo à força
Num paiol onde se achava esta princesa
E onde fui encurralada como corça.

E me lembro só do pó ali dançando
(entre as tábuas a luz era ofuscante)
E de um ovo a clara lambuzando

Meu branco trazeirinho invadido
Por um mastro grosso e encardido,
Que não era certamente de um infante...

16/01/2006

Nota da editora

Estarrecida, já tinha tomado conhecimento deste episódio através do conto "As Férias da Infância da Alma", publicado nos Contos da Alma, de Alma Welt, pela Editora Palavras & Gestos em 2004. Alma teria sido estuprada aos doze anos numa outra fazenda muito longe daqui, por um homem adulto, que ela descreve como um primo distante, de olhos verdes, não sei se alegoricamente... (Lucia Welt)

Eu, de meu cão (de Alma Welt)

Uma tarde, saindo com meu cão
Senti forte apelo da bexiga
E como, pensei, um cão não liga,
Tratei de agachar-me e ali no chão

Fazer sobre a relva o meu xixi
Pois eu lera sobre as donzelas celtas
Que urinavam na charneca por ali
E creíam que as fazia esbeltas.

Mas eis que inusitado entra o cão
Na estória e também dentro de mim
Que não tivera, ai! nem tempo nem ação

Pois montou-me num tom peremptório
E fisgando-me co'aquele arpão carmim
Fez-me ver de quem era o território...

15/12/2006

A centauresa (de Alma Welt)


Quantas vezes saí pela cancela
A cavalgar a minha égua preferida
Que me amava por eu montar sem sela
E por sentir-me nua em seguida

Ao desvencilhar-me do vestido
Assim que atingia a pradaria
Para num percurso sem sentido
Estar ao léu, ao vento e à alegria.

Então, ao derrapar-me no local
Sob meu umbral deliqüescente,
Estacava, era hora de descer

Ou melhor, deitar e enlanguecer
Estendida no lombo paciente,
A estranha centauresa horizontal...

08/12/2006

Nota da editora:

A ilustração deste soneto, de autoria de Guilherme de Faria, foi feita originalmente para o poema "A Amazona" do ciclo de poemas "O Circo", escrito por Alma em 2002( vide O Circo, de Alma Welt, no Leia Livro). Ao rever agora o livreto lindamente ilustrado pelo mestre, com desenhos feitos a pincel e tinta nanquin, espantei-me com a coincidência de postura da Alma nas costas do cavalo, antevista pelo pintor, pois o poema do Circo não discreve esse curioso lance, que Alma realmente praticava: deitar-se de costas, sensualmente, no dorso de seu cavalo. Guilherme antecipou em desenho o que a Alma viria a narrar em soneto anos depois. Realmente, os artistas são videntes...

Os Segredos da Palha (de Alma Welt)

Quando no galpão eu me encontrava
Com o meu irmão ou minha prima,
Uma vez na palha ali de cima,
Eu podia vigiar quem adentrava.

Mas um dia, um deles cavalgando
A potranca que era a sua alma,
De repente percebi a mãe entrando
Pela grande porta e nada calma.

Então apertei meu visitante
Numa senha sutil, e não bastante,
Segurei-o confirmando a acolhida

E ficamos assim, ele bem rijo,
No melhor minuto da minha vida,
Em que fui palha, leito e esconderijo.

06/01/2007

Eros-parnasianismo (de Alma Welt)

Vem, irmão Adonis, sobre mim...
Como é doce sentir o teus cabelos,
E logo, estando nus, os teus pentelhos
Como o adejar de um querubim

Sobre o monte da divina Afrodite
Nascida das espumas de si própria,
Da concha nacarada em cornucópia
Que não de outros mares, acredite!

E quando penetrares nos umbrais
Assim que o nácar das barreiras rompas
Poderás, senão ouvir as minhas trompas,

Mas aquosos murmúrios indizíveis
Que aos comuns podem mesmo ser rizíveis
Mas que aos eleitos costumam ser fatais.

05/01/2007

Pesadelo de uma noite de verão (de Alma Welt)

Ninfa, por dois faunos me encontrei
Perseguida e esbaforida em fuga vã
Buscando a proteção do velho Pã
Que me acolheria e era o rei.

Mas eis que alcançada fui na entrada
Do seu labirinto onde aos gritos
Fui por dois priápicos cabritos
Empalada pela frente e retaguarda.

E foi debalde o choro e súplica
Pois por uma noite e uma manhã
Fui pasto, ou pior, uma rês pública

Porquanto masturbando o bode Pã,
Assistia como uma celebração,
Dionisos, e mais todo o panteão.

5/1/2007

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Sonetos Luxuriosos da Alma (de Alma Welt)

Prólogo
1
Hoje acordei desesperada
Rolando no meu leito como outrora
Quando a presença era esperada
Do cavaleiro que viria a qualquer hora.

E pus-me a gritar na vã ardência
Com meus dedos plantados como um marco
No meu triste corpo em sua carência
De perfeita seta sem... o arco.

E então levanto sem que sequer me vista
E vou para o ateliê ainda nua
Sabendo que é possível assim ser vista

Por aquele passante da minha rua
De quem sempre sonhei, semi-acordada
Uma audaz visita inesperada.


2
Invada-me, amor, levante a trégua,
Com força, assim, como a uma fêmea,
Como um guri matuto a sua égua
Barranqueira, e nada de “alma gêmea”.

Coloque-me de quatro se quiser
Apoiada nas costas da cadeira,
Introduza sua vara assim certeira
Onde melhor lhe aprouver.

Mas quero que olhe enquanto faz
Pois meu prazer aumenta percebendo
Que sou olhada, aberta, assim por trás.

E se gozar bem fundo dentro em mim,
Só saia para ver-me oferecendo
Um buquê de flores brancas de jasmim.


3
Ponha-me, meu monge, à tua mesa,
Quero dizer, deitada mesmo sobre ela.
Levanta a tua batina assim tesa
Enquanto ergo bem alta a minha canela.

E que olhes assim, antes do tiro,
Pois o quero certeiro no furinho
Que tu sabes bem o qual prefiro,
Já que qualquer dos dois será teu ninho.

Andarilho, no entra e sai da tua andança
Não deixes de me olhar assim por trás
Para observares a lambança

Que produzes nesse corpo hospitaleiro
Que sempre acolheu teu leva-e-traz,
Portas abertas, como ao monge seu mosteiro.


4
Esta manhã, gentil, nem me acordaste
Com a tua doce interferência
No meu lindo sonho, e penetraste
Minha fenda por trás, mas com prudência.

E ficaste assim, adormecendo,
Gostoso, quentinho dentro em mim
Até que já molinho e escorrendo
Saíste, pois teu sonho teve fim.

Depois ouvi o som do teu xixi
E do banho após o barbear
Enquanto eu vazava por ali

Molhando o meu lençol com tal carinho
Que chamei-te antes mesmo de acordar
Para que voltasses ao teu ninho.


5
O meu amor adora os meus pentelhos
Tanto quanto eu, que ao acordar
Os contemplo longamente nos espelhos
Constatando a perfeição de emoldurar

Que eles, meus pelinhos, conseguiram,
Em torno de lábios tão rosados
Que nunca uma mentira proferiram,
E o seu amor declaram, mas calados.

E então eu me viro oferecendo
O revés que ele adora mais ainda,
Já que minha bunda é mesmo linda,

Enquanto entreabrindo ele vai vendo
Um botão rosado, apetitoso
Um mistério de gozo... doloroso.


6
Amor, hoje podemos variar,
Pois convidei a minha amiga pr’um pernoite,
E se fores amável, vais voltar
E nos pegar, para brindar-nos c’um açoite.

O rabo-de-tatu está na estante
Está tudo combinado, eis a senha:
Quando chegares espera um instante
Para ouvires-me exclamar “Ai! Amor, venha!”

E então entrarás meio vermelho,
E fingindo-te traído gritarás:
“Ah! Safada! Então esse é o espelho

Que dizias ser a tua companhia,
Enquanto eu só contigo dividia?
Agora, os três dividiremos este relho!”

7
Ontem, meu amor, foi uma glória:
A farsa funcionou à maravilha,
Minha amiga acreditou em toda a estória
E deixou-se castigar como uma filha.

Depois nos colocaste assim de quatro
E passaste em revista a retaguarda
Chegando a tirar-nos o retrato
(estou louca pela foto revelada!)

E então nos impuseste o castigo
Final e mais completo, o de Sodoma,
Dizendo que assim o amor se soma

À dor do flagelo merecido.
Depois de fustigadas pelo amigo,
Um botão de rosa... “intro-metido!”


8.
Ai, amor, quero voltar à minha estância,
Eis o dilema de ser insaciável,
Já nada pode aplacar a minha ânsia,
Quanto mais amor, mais desejável

É para mim o homem em seu vigor.
E sonho em ser total, completamente
Possuída por trás e pela frente
Com delicadeza ou com rigor.

Sonho, qual princesa ser mimada
Com flores e passeios e carinhos,
E logo em seguida castigada,

Colocada com a perna muito alta
Na cama, para então ser violada
Por todos os amigos, toda a malta!


9

Amor é um turbilhão, um mar de chamas
Que queima como incêndio na floresta,
É ferida aberta sobre as camas
E dói tanto que pouco ou nada resta

Só a ânsia de mais e mais amar
E mesmo virada assim do avesso
É redondamente se enganar
Quanto ao seu fim ou seu começo;

É ficar cega de tanto admirar
E querer o outro devorar
Para senti-lo dentro devorando.

Eis o nosso coração então repleto,
Que vai o Hermafrodita aflorando,
O ser primordial, uno, completo!


Epílogo
10
Levantei-me esta manhã e eis-me curada!
Posso passear sem ser notada
Senão como aquela bela Alma
Que parece ser feliz e muito calma.

O mundo saberá meu desvario
Apenas nestas “mal traçadas linhas”
Num futuro risonho e menos frio
Onde as mulheres não serão tão comezinhas

E então apaziguando meus furores
Vou procurar conter-me (não gargalhem)
Para deixar “as partes” descansarem


Embora minha prudência seja pouca.
Aguardem-me, pois, meus bons leitores
Que em breve voltarei ainda mais louca.

2005

Sonetos Proibidos da Alma (de Alma Welt)

(14)
(Este ciclo de sonetos, como era costume da poetisa Alma,
contam uma estória real (acontecida com ela) se lidos em
seqüência, e na ordem correta. Aconselho o leitor que assim
o faça afim de aproveitar essa característica tão original
da autora. Não obstante os sonetos lidos avulsamente também guardam seu encanto.) (Lucia Welt)

Prólogo
1
Sombras volúveis, sorrateiras sombras
Que avançam sobre o dia em seu ocaso:
Assim também caminho nas alfombras
De um passado tão presente e nada raso

Que carrego dentro em mim qual um segredo
Que, no entanto, grito aos quatro ventos:
Amor sagrado que me causa este degredo
E conduz estes meus gestos quase lentos.

Glória, maldição, honra e vergonha
Convivem em minha’alma neste amor,
Um filtro de delícia e de peçonha,

Pois maldito e proibido pelo mundo,
É como pura luz vinda do fundo,
E sua essência mesma é pura dor.


Naquele jardim...
2
Naquele jardim da nossa estância
Onde corríamos em meio a vagalumes
Que ornavam nossos corpos com seus lumes
Quando fruíamos a noite dessa infância,

Ali entre touceiras multicores
Mas azuladas pela luz desse luar
(ainda sinto das flores o perfume
e as batidas do meu peito a galopar...)

Deitada sob o peso de um guri
Sentindo palpitar seu coração
E entre minhas coxas seu “pipi’,

Calado meu gritinho, amor e dor,
Pelos lábios ardentes de um irmão
Precoce, amoroso... estuprador!



Sob a a macieira...

3
Sob a macieira do pomar
Onde gravei meu coração,
Aí o encontrava pra brincar
Num balanço, por si só uma canção.

E lembro que voava aos seus impulsos,
Sentindo como quem quase desmaia,
As carícias do vento sob a saia
Causando um arrepio até os pulsos,

E então eu me lancei naquele dia,
Do balanço em seu ponto mais alto
Para cair, morrer como quem cria,

E assim logo amparada por seu braço
Poder entregar-me como um salto
De quem tem no pescoço um doce laço.


Ai, Rôdo, eu me vejo...
4
Ai, Rôdo, eu me vejo ali caída,
E em seguida à tua doce aflição,
Em choque no alcatifado chão,
Antes de sentir a saia erguida.

E então (a minha vulva ainda sente)
Com teu pequeno pênis já tão ávido
Me penetraste o hímen complacente
Com teu ardor precoce, tão impávido.

E ficaste em mim, mas só por ti,
Entrando e saindo, encantador,
Que eu não mais sentia qualquer dor;

E resolveste, por seres um guri,
Gemendo de um modo assustador,
Fazer dentro de mim o teu xixi.


Ai, Rodo, ai Pampa...
5
Ai, Rôdo, ai Pampa, em meu pomar
Me lembro, depois, ao levantar,
Como sentia as coxas escorridas
Desde as pequenas fendas invadidas

E esse rio de urina (assim pensava)
Corria até os meus pezinhos
Produzindo uma volúpia que assustava
Por fazer-me desejar mais tais carinhos.

Pois no teu ardor, meu pobre Rôdo,
Quiseste colocar teu penisinho
No outro orifício cor de cobre

Depois de introduzir na fenda nobre
Puseste-me de borco, em grito: “eu fodo!”
Para invadir o meu sujo buraquinho.


Naqueles dias...
6
Naqueles dias eu vivia intensamente
Sentindo a minha carne degustada,
Guria, infanta nua, devassada,
Queria ser assim eternamente.

Mas lembro, todavia, o lance estranho:
Minha mãe, de noite, desvelando,
Tirando-me a calcinha, examinando,
Na pombinha, vestígios: sangue e ranho.

Mas eu já descobrira a plenitude
De ser pequena fêmea, mais que “mana”
Fazendo do meu “dar”, uma virtude.

E querendo mais doar, mais ser tomada,
Pelo amor e pela dor de ser humana,
Por coragem e desafio à finitude.


Tanto que voltei...
7
Tanto que voltei ao meu pomar
Tanto que o irmão me conheceu
Tornando-se um amante exemplar,
Inocente como a prece de um ateu.

Erguemos nosso altar a Dioniso
Defronte à minha ara, a macieira;
Não ligamos aos sinais e ao aviso
De Matilde, minha aia alcoviteira.

Tomados de uma tão doce paixão
(posso ao menos assim falar por mim)
Embora se tratasse de um irmão,

Pois viril demais, e com malícia
Precoce, produzia mais delícia...
Piá, que só não era um querubim.


Ó pequena divindade...

8
Ó pequena divindade alcoviteira,
E numes que constante eu invocava
Diante da minha bela macieira
Onde tão feliz me desnudava.

Pequena hetaera infante eu me tornara,
Votada a uma tragédia, fosse frágil
Se não à alegria devotara
Minha vida de poeta, mente ágil

Mas que guarda o horror daquele instante
Em que flagrados fomos e humilhados,
Pelos pulsos do solo levantados

E obrigados a cobrir, naquela trilha,
Com a mão o doce pássaro cantante
Que incauto nos pousara na virilha.



Muito tempo passar-se...

9
Muito tempo passar-se haveria...
Não pudemos repartir a juventude
Pois a águia guardiã da tal virtude
Expulsou-nos do pomar da alegria.

Rôdo, meu irmão, ah! Quanta pena...
Não podermos caminhar naquela senda
De um doce paraíso de encomenda,
Pois algo pune a inocência e nos condena.

E se ambos conservamos a pureza,
Tanto maior a rebeldia e nosso mérito:
Não poderão tratar-nos com dureza,

Que continuo a amar o amor pretérito,
O amor presente e talvez algum futuro
Mantendo o coração alegre e puro.



Epílogo
10
Nesta estância tão antiga, dos avó,
E antes deles outros tantos como nós,
As paixões escorrem pelas vinhas
Ou escalam as paredes qual gavinhas.

Mas nada se assemelha ao meu segredo
Que abro, meu leitor, a ti, sem medo
Pois és meu confessor sem rosto ou voz,
Que espero não se torne meu algoz.

Assim vou purgar ante vocês,
Cada momento, assim, ou cada lance
Para que o sentido então alcance

Das emoções tão vivas que causaram
As carícias venais, mas muito doces,
Pois, minh'alma, não o corpo, violaram...

04/10/2004