quinta-feira, 13 de setembro de 2007

As Quatro Estações (de Alma Welt)


O Pranto de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 60x80cm, coleção particular, São Paulo

"Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?"

"Ou quedo-me, chorando-me, deitada."



As Quatro Estações

Prólogo
1

No círculo perfeito de minha vida
Me insiro eqüidistante como um raio
E vejo minha ação distribuída
Ponto a ponto, em seu sentido horário.

E posso contemplar os meus acertos
E erros que também fazem sentido
Ao produzirem seus breves apertos
No arco do meu ser, assim contido.

A alma, carregada de figuras
Concentra minha história nas minúcias
Que me contam mais que iluminuras.

Secreto, mas audível qual canção,
É esse código desfeito por argúcias,
Que a melodia desvela ao coração.


Primavera
2

Desperta o meu amor na minha pele
Após o longo inverno de torpor.
Andei aí, por onde a dor impele,
Em sendas áridas, sem cor.

Sinto agora nas faces o rubor
E minha pele alva desmaiada
Deixa aparecer a sua cor
Qual alabastro, por dentro iluminada.

O coração, hibernado, que se aquece
Levanta, farejando, de sua toca,
Onde só a memória permanece

E tece, (enquanto, alegre, saio à caça),
Com seu pé pondo a girar a sua roca,
E o fuso puxa o fio, que não se esgarça.


2° Soneto de Primavera
3

Flores e crianças, verdes praças,
Eu vejo na cidade cimentada,
E a copa novamente iluminada
Das árvores, através destas vidraças.

Por janelas amplas do atelier,
A vida entra e sai abençoada
Enquanto me ajoelho a agradecer
Sua dádiva que vejo renovada.

Sinto que o dom deste meu ser,
Além da bela vida a mim doada,
É vivê-la, assim, sacralizada,

Num cântico perpétuo e fiel
À arte, ao amor, e ao prazer,
Rio d’alma, fluindo como mel.


3° Soneto de Primavera
4

Encontrei o meu amor, sempre o primeiro,
Esmaecendo os outros na memória.
Primavera faz jus à sua glória
E deixa florescer um espinheiro,

Não que o tenha em minha alma
(que não guardo nenhum ressentimento ):
Estendo minhas mãos e abro a palma,
Vazia, sem sequer um ferimento,

Pronta pra colher as novas flores
Cravos, rosas, e com elas suas dores
Que aceitarei, sendo tão belas...

E estando assim aberta para a vida
Percebo minha alma decidida,
Voando através destas janelas.


Verão
5

Estou nua, transpirando nos teus braços
E a volúpia do suor da nossa pele
Ressuma qual perfume nos abraços
Melados, que o corpo não repele.

Meus seios achatados por teu peito
Mamilos titilando que se aquecem,
Amplexo de ouro, tão estreito,
Que os pelos se confundem e entretecem.

Singrando em mim como uma nau
(que só não usarei a sua rima... )
Eu o sinto enorme, entrando assim.

Quero-te pois, pra sempre, em cima,
Na frente ou atrás( não levo a mal)
Enquanto navegares dentro, em mim.


2° Soneto de Verão
6

Amor meu, que belo este verão
Aquecendo a alma sob a carne,
Deixando mais clara a minha visão
Do imenso privilégio de assim dar-me!

Quero estar nua, para ti, assim inteira,
Podes apalpar-me se quiseres,
Sempre que assim quente estiveres,
Que não me furtarei a quem me queira...

Quero dizer, a ti, não leve a mal,
Que só ao meu amado dou-me assim,
Como uma fêmea, lúbrica, animal.

E se então souberes dar valor
A essa doação tão pura em mim,
Sentirás do meu verão todo o rubor..


3° Soneto de Verão
7

Dei-me este verão, o tempo inteiro
Vivendo a minha carne como festa
Enquanto Amor tornou-se fera, sorrateiro,
Emboscado na alma, qual floresta.

Em pé, sentada, nua ou mal coberta
Reinei neste ateliê como ninfeta,
Provocando o meu amor, como em oferta,
Aos olhos treinados de um esteta.

Então, tomando, enfim, minha paleta
Hesito entre o papel e a tela lisa,
Se bacante, pintora ou poetisa.

Mas percebo-lhe o olhar devorador,
Do sátiro cruel, que mobiliza
Um desejo maior que o próprio amor.


Outono
8

O homem que me amou todo o verão
Perdeu-se em seu desejo tão crescente
Que ao findar a quente estação
Mudou o seu tono, de repente.

Foi numa tarde fria, decadente...
Lançou-se em fúria de desejo sobre mim
E feriu-me com aquela lança ardente
Na frente e atrás, num vai-e-vem sem fim.

Mas se eu vivia só pra dar-me assim
Suave, alegre, até arrebatada,
Mas sempre sob o olhar de um querubim!

Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?


2° Soneto de Outono
9

Meu amor adoeceu dentro de mim
E dói-me o corpo, como a alma maltratada.
Ando pela casa, sem um fim
Ou quedo-me, chorando-me, deitada.

Expulsei o malfazejo do ateliê,
Embora ele se tenha arrependido...
Pois quem a fera oculta um dia vê,
Perde a inocência e está perdido.

Sinto-me, portanto, injustiçada
E as partes, que me doem, não consentem
Que esqueça, no que sou tão esforçada.

O telefone toca, e não atendo.
O inverno minhas horas já pressentem,
Resvalando como folhas, vão morrendo...


3° Soneto de Outono
10

O frio deste outono é bem maior
Que o inverno que minh’ alma agora almeja
O sussurrar do coração, que sei de cor,
Fala só do amor que ele deseja...

Mas tento tapar os meus ouvidos
Para que não ouça a tentação.
Como das sereias os gemidos,
Essas súplicas que vêm do coração

Cercam-me detendo a embarcação,
De minha vida empenhada no seu rumo,
Com seu mastro nu, mas tão a prumo,

Onde, amarrada, me seguro
Pra ouvir sem mais perigo essa canção
Que já me fez passar por tanto apuro.


Inverno

11

É chegada a estação meditativa,
Onde a alma se pode recolher,
e sinto-a propícia e curativa
Deixando o coração me comover,

Acolho-o, quente, em meu regaço
Como um urso na toca, a ressonar,
Depois de tanto estardalhaço
Daquele verão nada exemplar,

E também de um outono desolado
Em cujo ouro tingido de vermelho
Eu vi meu coração despedaçado.

Quero esquecer, dormir o meu inverno
Sonhando minha vida num espelho
Da urna de cristal onde eu hiberno.


2° Soneto de Inverno
12

Encontrei alguém no elevador
Que aqueceu meu coração em um segundo:
Um sorriso, um olhar, talvez um mundo,
Naquele espaço, em geral constrangedor.

Um homem, um rapaz, já não tão jovem,
Seguro, pelo olhar, mas que doçura!
Sei que posso confiar, pois quando escorrem
Os olhos não cometem impostura.

Deixou-me seu cartão, pra meu espanto
Morador do mesmo prédio, pouco acima
Dois ou três andares, se tanto,

Na verdade, três, melhor dizendo,
O que na minha vida sempre rima,
Enquanto novas flores vou colhendo.


3° Soneto de Inverno
13

Preparo uma ceia no ateliê:
Um fondue de queijo e vinho tinto,
Para o meu vizinho, já se vê,
A quem interfonei, por puro instinto...

Um candelabro “glabro” sobre a mesa
(só para lembrar Jorge de Lima )
Uma rosa colocada muito tesa
Num copo de cristal, e tudo em cima.

Espero não ficar muito ostensiva
Nas segundas intenções, e nem xereta
Tornando-me eufórica, invasiva.

Mas não, pois quando toca minha sineta
Meu coração dispara, qual donzela,
Com rubor e timidez como seqüela!


Epílogo
14

Acordo feliz neste meu leito
Com cheiro de lavanda ou velva, eu acho,
Da pele de um homem enfim eleito,
Que reconciliou-me com o macho.

Não entrarei em detalhes por agora,
Só adiantando, incorrigível, a alegria
Em que desperto, repleta, como a aurora
Que já nasce em plenitude sobre o dia.

O amor é uma criança e com candura,
Me quer assim, também meio naïve
Como em festa de primeira formatura...

Assim, eu comemoro o amor que tive,
Compartilhando com vocês, ó meus leitores,
A ciranda geral dos meus amores!_

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Outubro de 2001

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