quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Sonetos da Alma (de Alma Welt )


óleo s/tela de Guilherme de Faria, de 60x80cm, coleção do autor.


(Alguns sonetos eróticos selecionados dos "Sonetos da Alma" cuja série completa, de 21 sonetos pode se lida no blog de mesmo nome (ver links)


Dos "Sonetos da Alma" de Alma Welt

4

Espero, assim deitada, o meu amor
Fingindo-me um pouco adormecida
Estou nua, estou bela, e comovida
E o prazer da espera ainda é maior

Pois que os segundos, minutos, talvez hora
Que levará pra sua descoberta
Aumenta o meu prazer com sua demora
E põe a minha pele mais desperta

Sinto correr o mel sobre a coberta
Da cama, pois me encontro sobre ela
Nesta suave angústia que me aperta

De ficar assim, me imaginando
Surpreendida nua em pose bela,
Voyeuse, a mim mesma me ofertando.



6

Escolho uma modelo de atelier
Sob o critério de que possa vir a amar
Bela e fresca como um fruto no pomar
Que a mão colhe, pois não pode se conter.

E agora eu me pego a esperar
Sua chegada, já um tanto ansiosa
Caí na armadilha cor de rosa
Que armei, para mim, sem atinar.

Vem, Aline, e toca minha sineta
Entra, tira o jeans e a camiseta,
Depois o teu sutiã e a calcinha

E nua, com teu porte de rainha,
Te põe diante de mim com minha paleta
Enquanto o coração pra ti caminha.



7

Vem pros meus braços, amor, não tenho ciúme
Necessito o teu calor e o teu cheiro
Não te banhes, não mudes teu perfume
Quero-te suja, possuída por inteiro.

Está bem que ames teu homem e dele sejas
Mas meu desejo é um tanto diferente
Não poderás deixar-me, de repente,
Pois que já te fisguei, e me desejas.

Quanta riqueza de luxúria neste ninho,
Perdida em teu caminho e tu no meu
Com todo um universo de carinho

Com que passei a amar-te loucamente,
Para além desse desejo, que era teu,
De olhar-te como musa, simplesmente.



8

Estou exausta, amor, de amar-te tanto
A noite toda mordisquei os teus pelinhos
Lambi-te como gata aos filhotinhos
Estás molhada de saliva, e não de pranto.

Tenho teu cheiro impregnado nas narinas
Me sinto viciada em endorfinas
Se me deixares, meu amor, com tua ausência
A síndrome terei, de abstinência.

Mas mesmo assim, amor, quero ir além
Entrar dentro de ti, e ficar bem
Sob tua pele, ouvindo a alma

No seu lento respirar, que então me acalma,
Fazendo o coração bater também
Com a cadência que do teu, assim, me vem.




9

Olha, Aline, o quanto te desejo:
Enquanto dormias bela e nua
Pintei-nos num retrato, qual nos vejo,
Para provar-te que, pintora, ainda sou tua.

Vieste, por modelo, contratada
Um dia adentrando o meu estúdio
Deixastes ser por mim manipulada
Sem apresentar qualquer repúdio.

Agora aqui nos vemos, assim, nuas
Diante uma da outra. Qual a autora?
Que já não nos sabemos como duas.

Sou eu que pinto aqui, ou sou modelo?
Quem somos nós? Qual a pintora
Que fixou na tela as criaturas?


10

Hoje abro espaço nesta sala
De telas, cavaletes, sempre cheia
Para bailar cantar, como no Scala
Mas sem palco, sem coxia e sem platéia

Aline, serás minha parceira
Faremos “pas de deux” em nossa dança
Depois riremos aplaudindo a brincadeira
Estou feliz demais, como criança

Como é belo assim nos namorarmos
Como é mais belo ainda estar amando
A ponto de nos ver assim dançando

Sem do ridículo ao menos cogitarmos
E depois coradas e suando
Sugarmos nossos lábios, ofegando.



15

Ontem fizeste, Aline, uma proeza
No meu corpo, a ponto de eu corar:
Enfiaste-me teu punho com firmeza
Como se quisesses me estuprar.

Me retorci em volta do teu braço
Como uma chama em meio a ventanias.
Quando quiseste retirá-lo não podias,
Eu te retinha como agora às vezes faço.

Senti a tua mão dentro de mim
Como um parto às avessas, devassando,
Tateando-me por dentro, assim, assim,

Sentindo-lhe os dedos que se movem
Depois quando a retiras deslizando
Os rumores de água me comovem.


19

Volto ao estúdio querido, nos Jardins
Sentindo esta alma velha renascer.
Quero pintar, quem sabe escrever
Sonetos mais felizes, poemas infantis.

Quando me sentir recuperada,
Vou me vingar de mim, como Aretino
Escrevendo luxúria de enxurrada,
Porno-sonetos como aquele bom cretino.

Hei de estar curtida pelas dores
Causadas pela entrega aos meus amores
Pois foram tantos assim acumulados,

Perdidos, recalcados, na certa se somaram
A dor desta paixão tão cheia de cuidados
Por uma jovem que os ventos me levaram.



21

Vida, Amor, amores, Arte e alegrias
Graças demais pr’um simples ser mortal
Humor, humores, gozo, enlevo sensual
Eros, Psiquê e suas maravilhas

E há quem erga a sua voz blasfema
Contra a Vida e seu amor, e quer conter-ma!
Há quem faça dela uma vigília enferma
Aos dons da própria Vida, e a ela tema.

Mas não penso neles, não agora:
Eu vi o Hades, renasci faz uma hora,
Não renego da minha vida um só minuto.

Amei, tudo apostei, perdi, pus-me de luto
(que em mim morri), voltei, torno a postar
Nesta roleta russa que é amar!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

As Quatro Estações (de Alma Welt)


O Pranto de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 60x80cm, coleção particular, São Paulo

"Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?"

"Ou quedo-me, chorando-me, deitada."



As Quatro Estações

Prólogo
1

No círculo perfeito de minha vida
Me insiro eqüidistante como um raio
E vejo minha ação distribuída
Ponto a ponto, em seu sentido horário.

E posso contemplar os meus acertos
E erros que também fazem sentido
Ao produzirem seus breves apertos
No arco do meu ser, assim contido.

A alma, carregada de figuras
Concentra minha história nas minúcias
Que me contam mais que iluminuras.

Secreto, mas audível qual canção,
É esse código desfeito por argúcias,
Que a melodia desvela ao coração.


Primavera
2

Desperta o meu amor na minha pele
Após o longo inverno de torpor.
Andei aí, por onde a dor impele,
Em sendas áridas, sem cor.

Sinto agora nas faces o rubor
E minha pele alva desmaiada
Deixa aparecer a sua cor
Qual alabastro, por dentro iluminada.

O coração, hibernado, que se aquece
Levanta, farejando, de sua toca,
Onde só a memória permanece

E tece, (enquanto, alegre, saio à caça),
Com seu pé pondo a girar a sua roca,
E o fuso puxa o fio, que não se esgarça.


2° Soneto de Primavera
3

Flores e crianças, verdes praças,
Eu vejo na cidade cimentada,
E a copa novamente iluminada
Das árvores, através destas vidraças.

Por janelas amplas do atelier,
A vida entra e sai abençoada
Enquanto me ajoelho a agradecer
Sua dádiva que vejo renovada.

Sinto que o dom deste meu ser,
Além da bela vida a mim doada,
É vivê-la, assim, sacralizada,

Num cântico perpétuo e fiel
À arte, ao amor, e ao prazer,
Rio d’alma, fluindo como mel.


3° Soneto de Primavera
4

Encontrei o meu amor, sempre o primeiro,
Esmaecendo os outros na memória.
Primavera faz jus à sua glória
E deixa florescer um espinheiro,

Não que o tenha em minha alma
(que não guardo nenhum ressentimento ):
Estendo minhas mãos e abro a palma,
Vazia, sem sequer um ferimento,

Pronta pra colher as novas flores
Cravos, rosas, e com elas suas dores
Que aceitarei, sendo tão belas...

E estando assim aberta para a vida
Percebo minha alma decidida,
Voando através destas janelas.


Verão
5

Estou nua, transpirando nos teus braços
E a volúpia do suor da nossa pele
Ressuma qual perfume nos abraços
Melados, que o corpo não repele.

Meus seios achatados por teu peito
Mamilos titilando que se aquecem,
Amplexo de ouro, tão estreito,
Que os pelos se confundem e entretecem.

Singrando em mim como uma nau
(que só não usarei a sua rima... )
Eu o sinto enorme, entrando assim.

Quero-te pois, pra sempre, em cima,
Na frente ou atrás( não levo a mal)
Enquanto navegares dentro, em mim.


2° Soneto de Verão
6

Amor meu, que belo este verão
Aquecendo a alma sob a carne,
Deixando mais clara a minha visão
Do imenso privilégio de assim dar-me!

Quero estar nua, para ti, assim inteira,
Podes apalpar-me se quiseres,
Sempre que assim quente estiveres,
Que não me furtarei a quem me queira...

Quero dizer, a ti, não leve a mal,
Que só ao meu amado dou-me assim,
Como uma fêmea, lúbrica, animal.

E se então souberes dar valor
A essa doação tão pura em mim,
Sentirás do meu verão todo o rubor..


3° Soneto de Verão
7

Dei-me este verão, o tempo inteiro
Vivendo a minha carne como festa
Enquanto Amor tornou-se fera, sorrateiro,
Emboscado na alma, qual floresta.

Em pé, sentada, nua ou mal coberta
Reinei neste ateliê como ninfeta,
Provocando o meu amor, como em oferta,
Aos olhos treinados de um esteta.

Então, tomando, enfim, minha paleta
Hesito entre o papel e a tela lisa,
Se bacante, pintora ou poetisa.

Mas percebo-lhe o olhar devorador,
Do sátiro cruel, que mobiliza
Um desejo maior que o próprio amor.


Outono
8

O homem que me amou todo o verão
Perdeu-se em seu desejo tão crescente
Que ao findar a quente estação
Mudou o seu tono, de repente.

Foi numa tarde fria, decadente...
Lançou-se em fúria de desejo sobre mim
E feriu-me com aquela lança ardente
Na frente e atrás, num vai-e-vem sem fim.

Mas se eu vivia só pra dar-me assim
Suave, alegre, até arrebatada,
Mas sempre sob o olhar de um querubim!

Porquê? Porquê?, pergunto, ai de mim,
Teria esse malvado que invadir
Aquilo que era seu sem nem pedir?


2° Soneto de Outono
9

Meu amor adoeceu dentro de mim
E dói-me o corpo, como a alma maltratada.
Ando pela casa, sem um fim
Ou quedo-me, chorando-me, deitada.

Expulsei o malfazejo do ateliê,
Embora ele se tenha arrependido...
Pois quem a fera oculta um dia vê,
Perde a inocência e está perdido.

Sinto-me, portanto, injustiçada
E as partes, que me doem, não consentem
Que esqueça, no que sou tão esforçada.

O telefone toca, e não atendo.
O inverno minhas horas já pressentem,
Resvalando como folhas, vão morrendo...


3° Soneto de Outono
10

O frio deste outono é bem maior
Que o inverno que minh’ alma agora almeja
O sussurrar do coração, que sei de cor,
Fala só do amor que ele deseja...

Mas tento tapar os meus ouvidos
Para que não ouça a tentação.
Como das sereias os gemidos,
Essas súplicas que vêm do coração

Cercam-me detendo a embarcação,
De minha vida empenhada no seu rumo,
Com seu mastro nu, mas tão a prumo,

Onde, amarrada, me seguro
Pra ouvir sem mais perigo essa canção
Que já me fez passar por tanto apuro.


Inverno

11

É chegada a estação meditativa,
Onde a alma se pode recolher,
e sinto-a propícia e curativa
Deixando o coração me comover,

Acolho-o, quente, em meu regaço
Como um urso na toca, a ressonar,
Depois de tanto estardalhaço
Daquele verão nada exemplar,

E também de um outono desolado
Em cujo ouro tingido de vermelho
Eu vi meu coração despedaçado.

Quero esquecer, dormir o meu inverno
Sonhando minha vida num espelho
Da urna de cristal onde eu hiberno.


2° Soneto de Inverno
12

Encontrei alguém no elevador
Que aqueceu meu coração em um segundo:
Um sorriso, um olhar, talvez um mundo,
Naquele espaço, em geral constrangedor.

Um homem, um rapaz, já não tão jovem,
Seguro, pelo olhar, mas que doçura!
Sei que posso confiar, pois quando escorrem
Os olhos não cometem impostura.

Deixou-me seu cartão, pra meu espanto
Morador do mesmo prédio, pouco acima
Dois ou três andares, se tanto,

Na verdade, três, melhor dizendo,
O que na minha vida sempre rima,
Enquanto novas flores vou colhendo.


3° Soneto de Inverno
13

Preparo uma ceia no ateliê:
Um fondue de queijo e vinho tinto,
Para o meu vizinho, já se vê,
A quem interfonei, por puro instinto...

Um candelabro “glabro” sobre a mesa
(só para lembrar Jorge de Lima )
Uma rosa colocada muito tesa
Num copo de cristal, e tudo em cima.

Espero não ficar muito ostensiva
Nas segundas intenções, e nem xereta
Tornando-me eufórica, invasiva.

Mas não, pois quando toca minha sineta
Meu coração dispara, qual donzela,
Com rubor e timidez como seqüela!


Epílogo
14

Acordo feliz neste meu leito
Com cheiro de lavanda ou velva, eu acho,
Da pele de um homem enfim eleito,
Que reconciliou-me com o macho.

Não entrarei em detalhes por agora,
Só adiantando, incorrigível, a alegria
Em que desperto, repleta, como a aurora
Que já nasce em plenitude sobre o dia.

O amor é uma criança e com candura,
Me quer assim, também meio naïve
Como em festa de primeira formatura...

Assim, eu comemoro o amor que tive,
Compartilhando com vocês, ó meus leitores,
A ciranda geral dos meus amores!_

____________________

Outubro de 2001

sábado, 8 de setembro de 2007


"No círculo perfeito de minha vida... " -Desenho de Guilherme de Faria para a capa do folheto "As Quatro Estações", de Alma Welt

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Alquimia no Sótão (de Alma Welt)


Alma Welt- desenho de Guilherme de Faria, a pincel, nanquin e aquarela, sobre papel Shöeller montado, de 51x74cm -coleção do autor.

(132)

Pelo escuro corredor do casarão
De noite quantas vezes tateei
Cega e nua, para alcançar o sótão
Pela escada em caracol, que nunca errei

Pois o cheiro do desejo me atraía
De meu irmão adorado e tão viril
Que me esperava com o coração a mil
E o mastro que já quase se esvaía

Com aquele mel claro a escorrer
Semelhante ao que eu mesma destilava
E que gemendo com o dele misturava.

E então, naquela doce alquimia
Produzíamos prodígios e poesia
Pela noite, até o dia alvorecer...

05/01/2007

Questão de métrica (de Alma Welt)

(131)

Amor meu, esta noite venha a mim
No quarto,deixarei a porta aberta,
Entrarás qual sorrateiro serafim
Sem asas, e sob a minha coberta

Por trás de mim te porás também pelado
Que estarei adormecida mas de lado
E poderás entrar sem mais convites
Desde que a porta errada tu evites,

Se não perderei minh'auto-estima
Com grito semelhante ao de quem goza
E que porá o casarão em polvorosa,

Pois isso aconteceu um outro dia
Com um poeta que errou métrica e rima
Entrando pelos fundos da poesia.

11/09/2006

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A cadela (de Alma Welt)

(130)

Às vezes acho que sou uma cadela
Pois não consigo me conter
E penso em dar e dar até morrer
Ou então voltar para a costela,

Pois meu corpo lindo só foi feito
Para o sexo e o amor, e insatisfeito
Precisa pelo outro ser olhado,
E com volúpia tocado, penetrado.

E assim, eu me debato no meu leito,
E logo nua, colocando-me de jeito
A ser assim, pelos fundos, descoberta

Por alguém que vendo a porta aberta
Não resistisse à minha pose "acidental"
E invadisse, por impulso, o meu quintal...

09/08/2006

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Alma Welt como bacante exausta (desenho de Guilherme de Faria)


Alma Welt como bacante exausta- Desenho de Guilherme de Faria, no acervo do Banco Central do Brasil.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Pobre Lucia (de Alma Welt)

Uma noite, após tomar meu caldo
Flagrei a meiga Lúcia sem malícia
No quarto ser fodida sem carícia
Pelo seu marido o vil Geraldo.

E vi a branca, linda bunda da guria
Ser estuprada por um pênis gigantesco
Que causava muchocho algo grotesco
Pois, de quatro, em dor ela gemia.

Eu quis entrar e bater nesse vilão
Que sujeitava a minha irmã à condição
De cadela toda noite havia anos...

Mas, o quê pude, depois de questioná-la?
Até hoje lembrar disso me abala:
Ajoelhei e beijei seu pobre ânus!

(Alma Welt)


Nota

Tudo isso é verdade, infelizmente, aconteceu mesmo, e foi nesse dia que começou a minha "reeducação" sexual pela Alma, e entrei numa fase maravilhosa de sexo com minha irmã, que me ensinou os seus segredos e me libertou. E lembrem que ela era mais nova do que eu!
É demasiado patético o episódio, e só o mostro aqui por curiosidade e para os leitores constatarem o grau de compaixão verdadeira de minha irmã, a divina Alma...
(Lucia Welt)

Sonho eleito (de Alma Welt)

(129)

Meus passados amores, imagino
Que ainda estão comigo e em paixão,
Mayra, Andrea, Vânia, Gino
Que tanto prazer ainda me dão!

Pois cada noite eu escolho o meu par
E conduzo o sonho até o gozo...
E como rende o enlace amoroso,
De mil ângulos a me fazer gozar!

Às vezes eu os junto no meu leito
E produzimos aquela grande orgia
Como só possível em fantasia,

E no final exausta e satisfeita,
Na confusão da cama já desfeita
Me entrego afinal ao sonho eleito.

09/07/2006

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Passando em revista (de Alma Welt)

(128)

Quisera repassar os meus amores
Em revista como uma generala
Picaresca, é claro, com tambores,
Continência, farda, toda em gala.

Mas eu os poria assim pelados,
Para lembrar de seus corpos amados
E da nossa louca incontinência
Que não conhecia resistência

E que era a marca escolhida
De nossa juventude desvairada
Que tudo apostava, de saída.

Ah! Como ainda gozo em recordar
Daquele ardente desejo a fisgada
E o rios que corriam para amar!

14/09/2006

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Origens de família (de Alma Welt)


Esta tela, de sua frase abstracionista, óleo s/ tela, de 2007, de 90x120cm, sem título, foi a última pintada pela Alma poucos dias antes de morrer.
(127)

Origens de Família (de Alma Welt)

A mim, pela avó Frida foi contado
Que a nossa estirpe era improvável,
Pois de um lado havia um condestável,
De outro um campônio do condado

Que na verdade era um filho do nobre
Mas espúrio pois nascido pelo rabo
E por isso fora dado como um nabo
A uma camponesa muito pobre.

E eu, que era guria, na inocência
Ficava imaginando aquele parto
Da estória picaresca, e não descarto

Possa estar nela a raíz do meu humor,
Mas mais provavelmente a retro-ardência
Que me faz querer sentir aquela dor.

01/12/2006

domingo, 26 de agosto de 2007

Violada (de Alma Welt)

(126)

Quando eu passeava na floresta
Com ares de pequena camponesa,
Atrás de cogumelo ou framboesa
Para voltar pra casa toda em festa

Não me dava conta do perigo,
Pois ali, uma tarde, o inimigo
Me imporia cruel violação
Sem que me coubesse reação

Senão chorar e impotente suplicar,
Desnudada e brutalmente penetrada,
Duplamente, aberta, conspurcada.

Depois fui encontrada a vagar
Louca, esfarrapada, a claudicar,
E a quem só restou ser internada.

6/01/2006

Nota da editora:

Fiquei imensamente chocada com este soneto, que a rigor não se encaixa no gênero erótico, por ser doloroso, patético e até constrangedor. Não sei se a Alma o poria aqui. Mas como ela tinha o hábito e a coragem de contar tudo, absolutamente tudo de sua vida em poesia, resolvi afinal publicá-lo. Quando o que ela contou aqui aconteceu, depois de a procurarmos para o almoço, pois estava atrazada, a encontramos no bosque, perdida, com o vestido em farrapos, os seios e as coxas expostos e arranhados, vagando naquelas condições, como se estivesse louca. Não falava coisa com coisa, e desolados e aflitos nós a pusemos no carro dirigido por Galdério e fomos interná-la numa clínica conhecida em Alegrete, onde ela chegou tão agitada que tiveram que lhe ministrar um "sossega leão" que a fez dormir por 24 horas. Diante dos vísíveis sinais de violência a médica e psiquiatra da clínica procedeu a exames íntimos em minha irmã que constataram o estupro. Essa médica era a querida doutora Jensen, que se tornaria nossa grande amiga. O estuprador, depois ficou provado, era o meu ex-marido, Geraldo, que sempre cobiçara Alma, e que se revelou um bandido e um assassino. Tudo foi contado depois pela Alma no seu romance A Herança. (Lucia Welt)

Debaixo da minha macieira (de Alma Welt)

(125)

Debaixo da minha macieira
Fui por meu irmão desvirginada
Embora quase assim de brincadeira
Como se a primeira vez não fosse nada.

Mas meu lindo sacaninha endiabrado
Quis conferir depois o outro lado
E me propôs brincar de cachorrinho
Para conhecer o outro furinho.

E foi então que fomos surprendidos,
No que chamou "incesto de Sodoma"
Pela Mutti, debaixo de um tapona,

E lembro que por um segundo ou mais
Apertei-o tanto ali por trás
Que ao lembrar nos pomos comovidos...

28/12/2006

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Alma Louca (de Alma Welt)

(124)

Acordei de noite em grandes ânsias
De desejo incontido e rebelado
Por um sonho nítido e melado
Que me pôs em fogo as reentrâncias

E então subi até a mansarda
E joguei-me nos braços do meu Rôdo,
Dizendo-lhe: "Sou eu que hoje fodo,
Põe-te ao meu comando e baixa a guarda!"

Então, molhada que já estava,
Sentei no seu colo e, empalada,
Subindo e descendo revesava

Minhas duas boquinhas sequiosas
Que o ordenhavam e punham ensopada
Sua parelha de prendas côr-de-rosas...

28/09/2006

Desafio (de Alma Welt)

(Para ser lido com sotaque luso (risos)(AW)

(123)

Quero esta noite ser fodida
Como uma cadela em pleno cio,
Me desculpe o leitor o desafio
Na primeira estrofe, de saída.

Então pense logo em minha concha
Do mais puro nácar já molhada
Pelo olhar da platéia ou peonada
Que sonha meter-me a deixar troncha,

Aberta, arrombadita e devassada,
Pra depois atirar-me escorraçada
Como uma cadela em plena rua...

E quando te afastares, meu leitor,
Logo quererás que eu seja tua
Novamente, para então "fazer amor".

24//05/2006

Eu e o Malho (de Alma Welt)

(122)

Uma vez meu irmãozinho me levou
Até a sua mansarda quase a muque,
Ele dizia que aprendera novo truque
E que eu gostaria desse show.

Antes não precisava tal pretexto
Pois eu não me fazia de rogada
Até o dia em que me pôs descadeirada
De tanto que me fez reler um texto

De quatro, pelada, no assoalho
Onde escrito em letras bem pequenas
(o que eu bem fizera a duras penas).

Mas, então, nesse dia me mostrou
Um vídeo pornô luso: "Eu e o Malho",
Que me fez rir o quanto me enrabou.

28/08/2006

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Alma Welt como deusa germânica (óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 60x50cm)

Peão Negro (de Alma Welt)

1

Havia um peão aqui na estância
Negro como a noite minuana,
Mas ardente e vivo como a infância,
E que era um pau pra qualquer xana.

Na verdade não, só para as tais,
Muito fundas e largas qual gamelas
Denunciando já por suas canelas
Suas bucetas que são como portais.

E justo esse portento me pegou
No bosque, quando, intruso, me flagrou
Pois agachada, em volúpia, eu urinava.

E jogando-me no solo, mas de quatro,
Meteu-me atrás a tora, sem um trato,
E também como portal me inaugurou...



2
Peão negro, retinto e azulado
Que ousaste esta Alma ter tocado
Não por minha brancura impossível
Mas por ser tua patroinha inacessível

Pulando o que seria um grande fosso
E tendo me encontrado vulnerável
A fazer um xixi muito agradável
No meio do bosque antes do almoço

Por trás me empurraste para o solo
E antes que eu pudesse levantar-me
Entraste até o fundo em minha carne

De uma maneira afoita e tão doída
Que tiveste de carregar-me ao colo
Logo após, como uma recém-parida.



3
Me levaste, peão negro, bosque a dentro
Já que eu não podia caminhar
Pois me acabaras de arrombar,
Por trás, do equilíbrio sem o centro.

E então, numa clareira mais ao fundo
Me puseste de quatro novamente
Para olhar o que deixaste imundo,
Rubro ralo vazando docemente.

Então, não resistindo reincidiste
E ficaste chafurdando com estrépito
Tirando e pondo o grande falo em riste

Até que, assim aberta e inundada
Deixaste-me ali, qual ser decrépito,
Nua e suja, em sangue... violada.



4
Voltei cambaleando ao casarão
A escorrer aquele caldo pelas pernas,
Esfarrapada e a sentir-me qual vulcão
Aberto, a vomitar brancos espermas.

E caindo de borco na varanda
Fui acudida pela pobre da Matilde
Me cobrindo de censuras como manda
O costume de sua casta humilde.

“Bah! Eis o que levas, ó guria,
Por seres assim não recatada
E saires por aí meio pelada!”

“Agora ficarás para titia
Pois não terás mais homem que te queira
Como noiva e mulher, selada, inteira!”



5
O peão negro que um dia me pegou
Queria me alargar mas não largar,
E eu não podia pelo prado mais andar
Sosinha, pois o pobre viciou.

E logo me fodia a toda hora
No bosque, na cascata e no galpão
Enterrando-me a sua imensa tora
Na frente e atrás sem mais perdão.

E assim eu já andava claudicando
Com as pernas muito abertas e sangrando
Como em dias de minha menstruação.

E meu pobre ânus... arrombado,
Já não segurava, o coitado,
A carga que era a sua obrigação.



6
E assim tornei-me escrava do peão
Negro como negra é a noite escura
Mas não com o amargor da escravidão
Mas com negros laivos de doçura

Pois que me agradava sujeitar-me
A todos os caprichos do seu charme
Negro como as negras brincadeiras
De ir comendo antes pelas beiras

Pois gostava de lamber seios e lábios,
Os de cima, os de baixo e o botão perto
Em que metia a língua em toques sábios

E logo abrindo bem a minha bunda
Até ver que me punha o cu aberto,
Mais gostando se me encontrava imunda.



7
Um dia novamente fui flagrada
Desta vez pelo negrinho seu irmão,
Quando este me viu sendo empalada
Pelo negro mastro do peão,

Justo no momento de esguichar
Dentro do meu ventre o creme branco
Não faltando nem o lance de mijar
Dentro do meu cu e aquele tranco

Com que retirava após cavar,
Num estalo e golpe súbito, conforme
A visão que queria desfrutar.

Desta vez foi o negrinho quem desfruta
A visão da fonte espúria e enorme,
A jorrar de mim como uma gruta.



8
Assim tornei-me a puta de um peão
Bah! Que doce me sentir assim tão puta
Sabendo que o machão que me desfruta
Era um solitário c'um irmão

E assim não iria alardear
Pois apenas o negrinho nos flagrara,
Exigira a sua parte e então calara
E agora eram dois a revezar.

E tanto agora os dois me disputavam
Que eu era uma cadela o tempo todo
A dar como uma puta que pagavam

Mas somente em visões oferecidas,
Um ao outro dizendo: “Agora eu fodo,
E tu ficas com as sobras recolhidas.”



9
Foi assim que no bosque me encontraram
Naquele dia, rasgada e a vagar
Delirante, os seios nus, que arranharam,
E minhas coxas de tanto me ralar,

Rodo e Galdério me agarraram
E me levaram a Alegrete pra internar,
O que só protestei quando chegaram
Dois negrões, desta vez pra me dopar.

Seminua, amarrada e sem Descartes
Acordei afinal muito obumbrada
E sendo examinada em minhas partes

Mais aberta, invadida, estuprada,
Agora por colheres e espéculos
Em sessões que pareciam durar séculos!



10
E depois o veredito: violada!
Bah! Que novidade, não sabia...
Esperava tão somente a rodada
Que cabia aos negrões que ali havia,

Que eram os enfermeiros e um vigia
E também um interno gigantesco
Com seu jeito de mostrar, meio grotesco,
O que no seu pijama nem cabia.

Mas, bah! com a chegada da doutora
Jensen, minha doce salvadora,
Retomei minha vida como gente,

Pois agora eu seria bem cuidada
Por dentro como ser inteligente
E por fora como filha muito amada...

FIM


Nota
Estarrecida encontrei recentemente este ciclo de sonetos da Alma, totalmente inédito e desconhecido, que afinal explica as razões de a termos encontrado em deplorável condição vagando no bosque, esfarrapada e cruelmente arranhada, quando então foi por nós internada numa Clínica em Alegrete, em Dezembro de 2005, onde foi diagnosticada como esquizofrênica e ninfomaníaca, o que me fez de saída desconfiar desses diagnósticos que me pareceram equivocados ou arcaicos, ultapassados. Alma ali, creio que por sua extraordinária beleza, também foi assediada por uma atendente ou secretária que fazia chantagem sexual com minha irmã para deixá-la usar o computador (descobri isso na correspondência da Alma com Andrea). Fica aqui o meu protesto. Até o momento do encontro desta escabrosa narrativa em sonetos, a que Alma, em vão (a meu ver) procura dar um tom humorístico, embora tenha logrado o tom erótico (reconheço) eu desconhecia as causas e os responsáveis pelo estado em que ela foi encontrada. É verdade que o médico que a examinou constatou estupros repetidos. É preciso que se diga que o "peão negro" e seu irmão foram despedidos por Rodo pouco depois da internação da Alma, mas Rodo nunca falou sobre o assunto comigo ou com ninguém e eu nem sequer dei importância àquelas demissões, nem relacionei os fatos. Pobre irmãzinha, se não fosse a abençoada doutora Jensen... (Lucia Welt)

Alma Welt


Desenho de Guilherme de Faria para o qual Alma posou em 2001 no seu ateliê em Sâo Paulo.

Nas estradas do meu Pampa (de Alma Welt)

(121)

Muito por meu Pampa já vaguei
Embora isto pareça pura prosa.
Foi quando da Clínica me esgueirei
Fugindo pr'uma estrada perigosa

Em que pouca gente boa se aventura
Mas em que pretendi tomar carona
Vestida como estava c'uma lona
De brim, como um saco, sem cintura.

O chinelo ao atirar na rodovia,
Acabei recolhida por primeiro
Por um que era um mau caminhoneiro

E que agarrou e abusou desta guria
Mas em quem dei "joelhaço" bem certeiro,
Quando a viola em cacos já se via...

29/12/2005
Nota da editora:

Neste estranho soneto, que seria doloroso e patético se não contivesse uma nota humorística típica dela, minha irmã espantosamente revela, se bem o entendo, que foi estuprada por um caminhoneiro, numa estrada em pleno pampa, ao tentar pegar uma primeira carona depois de fugir da clínica em que estava internada. Muito femininamente ela se refere a detalhes como o camisolão informe das internas, e as infames chinelas que eram obrigadas a usar e que ela atirou na pista ficando descalça. A beleza da Alma era perigosa para ela, e a fazia visada. Ela se referiu a este episódio de sua fuga numa das cartas a Andrea, com quem se correspondia na época, por e. mail. Na carta ela conta que deu um "murro na cara" do violador, o que acho menos provável que este "joelhaço", e que pulou da boléia e correu pela pista, até que o motorista, saltando também, deu um tiro para cima para assustá-la. Na carta a pobre Alma ainda conta que, de medo e susto fez xixi de pé, pelas pernas abaixo, e continuou andando e chorando pela estrada, ouvindo a gargalhada daquele vilão, que religou o caminhão e passou por ela, seguindo em frente. Essas peripécias da Alma e seus sofrimentos nos confrangiam, doíam muito, sem que pudéssemos protegê-la de si mesma e do mundo. (Lucia Welt)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Memórias do sótão (de Alma Welt)

(120)

De noite eu subia no seu quarto
Ouvindo do vazio aquele estalo.
Meu irmão fora exilado no Internato
Pois a Mutti decidira apartá-lo

De mim, que no seu catre de pinho,
No sótão solitário do ausente
Deitava encostando o narizinho
Para aurir nos lençóis seu corpo quente.

E então chorava muito, me lembrando
Dos seus lábios, do corpo e sua posse
Que de forma tão cruel me foi negada.

E adormecia então já bem molhada
Por estar nos seus lençóis e recordando
A glória de ser fêmea tão precoce...

15/01/2007

A vitela (de Alma Welt)

(119)

Entre minhas lembranças da infância
Está aquele dia inusitado
Em que no prado e à distância,
Fui laçada e derrubada feito gado

Pelo meu irmão que quis mostrar
Que havia aprendido a laçar:
Enroscada pelos pés me vi caída,
Nem assim querendo dar-me por vencida.

Mas com o laço amarrou-me bem veloz
As mãos como se fora uma vitela,
Levantando meu vestido até a costela,

E estando eu de quatro como rês
Rasgou-me a calcinha pelo cós...
Haja soneto pra contar o que ele fez!

03/09/2006

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Bucolismos (de Alma Welt)

(118)

Uma vez, guria, vi um touro
Cobrir uma vaquinha muito terna,
E percebi um sutil abrir de perna
Para facilitar aquele estouro

Que na verdade entrou como uma luva
E despejou um rio em sua entranha,
Enquanto eu me via um tanto estranha
A pensar em minha própria vulva

Que seria um dia adentrada
Como uma posta de carne devassada
E que era a feminina condição,

Sermos feitas pra isso, e espantoso:
Um belo e puro cálice carnoso
Para a crua e pertinaz penetração.

20/11/2006

domingo, 19 de agosto de 2007

Ardências (de Alma Welt)



(117)

Pelas sombras do bosque eu caminhava
Numa bela manhã de primavera
E logo, de repente, eu precisava
Agachar pro xixi como se espera

De guria em longa saia, até estranha,
Pois eu vira os guris nos seus concursos
De mijar mais longe, e sem recursos
Eu andara a experimentar essa façanha.

E foi quando um raminho de urtiga
Tocou minha rachinha e foi um custo
Pois que o ardor subiu pela barriga,

E hoje, já tão longe desses tempos,
Eu atribuo a essa ardência e o seu susto,
Meus desejos, aventuras, contratempos...

18/11/2006

sábado, 18 de agosto de 2007

Alma Welt, Grande Nu Germânico ( pintura de Guilherme de Faria)

Encomenda (de Alma Welt)

(116)

Penetre-me meu amor a minha fenda
Mas jaza calmo e quedo logo então
Para eu sentir a encomenda
Palpitando como um doce coração,

Em seguida ir vazando lentamente,
No sentido antigo mesmo, literal,
Para eu assim parir-te docemente
Com a baba qual cordão umbilical.

E então estando cheio de energia
E melado qual houveras explodido
Poderás penetrar-me o incomprendido,

Estreito botão róseo detratado,
Que tem a preferência do mercado
Sem que o reconheça a hipocrisia.

07/12/2006

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Eros e Psiqué


Desenho de Guilherme de Faria que ilustra a capa do livro "Contos da Alma", de Alma Welt, publicado pela Editora Palavras & Gestos, e à venda nas livrarias de São Paulo, bem como através da Internet.
A Psiqué do desenho é um retrato da Alma, para o qual ela posou para o artista.

O Estupro (de Alma Welt)

Estava eu chegando ao casarão
E avistava já nossa porteira
Quando por trás de mim veio o peão
E jogou-me de borco na poeira.

Rasgou brutalmente o meu vestido
E deixou-me esfarrapada e exposta
Me olhando com um olho pervertido
Como se carne eu fora... mera posta.

A entrar e sair enquanto olhava
Pardo caldo a brotar da cavidade,
Vulcãozinho a escorrer a sua lava,

Agora rubro o antes meu rosado anus
Que arrombou com seu pênis, sem piedade,
Sem saber que era dia dos meus anos...

A tentação da Alma (desenho de Guilherme de Faria)

O Pacto (de Alma Welt)

(115)

Pelos escuros corredores da mansão
Virás hoje de noite, eu bem sei,
Pois me olhaste, percebi, com intenção,
E tudo comprendi e... aceitei.

Entre presa e predador existe um pacto
Mudo, ancestral, perturbador.
Pois deixarei que me pegues com ardor
E me dês, como se diz, "aquele trato"

Que consiste em me usares e abusares,
Colocar-me em improváveis posições,
Devassares-me os mais íntimos rincões.

E eu deixarei, feliz, tu me melares,
Como fora minhas próprias oferendas
A escorrer de amor por minhas fendas...

05/01/2007

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Tramas da Noite (de Alma Welt, e desenho de Guilherme de Faria)


(114)

Esta noite deixarei a porta aberta,
Estarei nua a fingir estar dormindo:
É verão e não preciso de coberta,
Poderás observar meu corpo lindo.

Teu olhar eu sentirei, de olho fechado,
Sobre a minha anca contemplada,
Sobretudo a minha concha nacarada
Que exponho por estar meio de lado.

Fluindo como riozinho humilde
(mas que que somado ao creme masculino
dará muito trabalho pra a Matilde...)

Sob o fogo mesmo desse olhar
Deixarei a vulva abrir e desaguar
Lentamente o sumo cristalino...

14/12/2006

Profissão de Fé (de Alma Welt, e desenho de Guilherme de Faria)


(113)

Nestes tempos de profunda decadência,
De "cultura de massa", assim chamada,
Que não passa de anal incontinência
E de vil vulgaridade divulgada,

Eu continuo a resistir heroicamente
Buscando beleza e qualidade
Na arte e no erotismo propriamente,
Que nada tem a haver com sujidade...

E construo minha própria Renascença
Rejeitando só o tom de um Aretino*
Por achá-lo mau pornô e mui cretino.

Assim, quando repasso o itinerário
Percorrido, confirmo a minha crença
No valor do meu texto temerário.

19/12/2006

Notas da editora:

Sonetos como esse confirmam a lucidez da Alma a respeito de seus textos eróticos, que ela restaurou à categoria de grande Arte, por achar o gênero até então aviltado pela malícia masculina, fruto, segundo ela, da consciência infeliz herdada do cristianismo. Os poetas consagrados que se dedicaram ao gênero, como José Maria du Bocage (século XIX) e Pietro Aretino (século XVI), escreveram sonetos eróticos que na verdade eram meramente pornográficos, embora tecnicamente engenhosos. Apezar de grandes poetas, o que eles escreveram neste gênero, equivale ao mais baixo pornô do século XX, com aquela mesma visão machista, rebarbativa, e pejorativa do sexo, que se pode ver nos videos pornôs das locadoras do nosso tempo.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Juizos de guri (de Alma Welt)

(112)

Meu irmãozinho pediu-me pra agachar
E ficar de quatro sem calcinha,
Pois queria que queria me olhar
Por trás para ver minha pombinha

Do ângulo que parece um coração
E com que dizia ter sonhado,
E que assim permitiria a opção
De evitar o portão mais apertado.

Mas então ele me disse ser preciso
Trabalhar e cumprir dupla jornada
Pra fazer afinal um bom juizo.

Então, eu, paciente e encantada,
Pensei, duplamente experimentada:
"Meu guri sempre teve muito sizo..."

16/12/2006

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Quando guria... (de Alma Welt)

(111)

Quando guria eu vi nosso pampeiro
Imenso desdobrar-se mais escuro
Num relincho com um mastro semi-duro
Apontado contra o solo do terreiro,

E então diante do meu olhar pasmado
Despejou a sua carga sobre o chão
Num lago viscoso e perfumado
Enquanto eu sentia um comichão,

O primeiro talvez de que me lembro,
Pois bem vira onde tivera sua guarida
Aquele avantajado e negro membro

Porquanto ao segurá-lo qual mangueira
Galdério o enterrara na trazeira
Da minha pobre egüinha Margarida.

11/01/2007

sábado, 11 de agosto de 2007

A última vez (de Alma Welt)

(110)

Esperei-te além do meu limite,
Eu que mal o tenho, na verdade,
Dirigi-me ao teu quarto sem convite,
E meti-me no teu leito com vontade.

Estava eu nua e tu um pouco tonto:
O teu mastro somente semi-pronto,
Tive que pegá-lo com prazer
Para conduzí-lo ao seu dever.

Então, ao dares conta do ocorrido
Estavas de novo em tuas moradas
Tal como houveras prometido,

Criança, ao escolher estes dois ninhos
Nos recém-descobertos buraquinhos
Pra serem lar de nossas almas exiladas...*

15/01/2007

Nota da editora:

* Esta foi última vez que Alma esteve com Rôdo. Entre duas almas ardentes e tão simbióticas o incesto fora inevitável desde a infância, apezar dos esforços da Mutti para separá-los. Quanto a mim, sempre os compreendi e protegi como pude.
Eles foram feitos um para o outro, e seu amor, paixão mesmo, era tão grande que ninguém tinha o direito de intervir. Cheguei a pensar que Rôdo não sobreviveria à morte da Alma...

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Sonetos da Infância da Alma (de Alma Welt)

(Como todos os ciclos de sonetos da Alma, estes devem ser lidos em seqüência e na ordem correta de numeração, pois assim produzem uma estória inteira, como uma pequena saga interior da autora).

Prólogo

Manhã de esperança, mar rosado,
Línguas douradas no azul nascente;
Assim vejo o arrebol sobre o telhado
Do casarão pousado à minha frente.

Aqui nasci para o amor, embora
Tenha sido parida numa estrada
Tal como narrei em boa hora
No meio de uma saga inusitada.

Mas esta casa-grande na cidade
Que ainda resta na família endividada,
Contém o sótão onde tanto fui amada

Lembra, Rôdo, amantes irmãozinhos,
Como era nosso amor na tenra idade,
Quando ali brincávamos nuzinhos?


2
Bem cedo procurei o meu irmão
Na mansarda da casa, o seu quartinho,
Pois a Mutti percebera o temporão
Desejo do precoce casalzinho.

De noite eu fugia do meu quarto
Que dividia com a Lúcia e a Solange.
Curioso: esta memória não constrange,
Amo recordar, e não descarto

Os lances detalhados na memória
Transformando meu desejo na estória
Que passo a revelar, ali, leitor

E assim eu cantarei o meu amor
Para que o mundo perceba enfim a glória
Do amor entre crianças sem pudor.



3
Me lembro da noite em que levanto
E deixo o meu leito como sombra
Enrolada num lençol como num manto
Escapando de Solange, a minha “Solombra”

E da outra, minha irmã meio apagada,
Lúcia com seu rosto pura sarda,
Dirigindo-me à escadinha da mansarda
Para encontrar Rôdo, e ser amada.

Subindo no escuro o caracol
Da escada de ferro, desnudada,
(eu já deixara no sopé o meu lençol),

E atrás de um biombo mau chinês
Deitar com meu guri, emocionada,
Para conhecer o que Deus fez.


4
Ai, Rôdo, que doce, que emoção
Quando a primeira vez me desnudaste
E puseste em minha conchinha a tua mão,
Abrindo-a para olhar o seu contraste,

Rosada contra a alvura circundante
Do meu corpo e dos lençóis onde eu pousava,
Que entre minhas coxas já molhava
Com o mel que produzia nesse instante.

E então colocaste o teu pintinho
Na pequena fenda, assim, quentinho,
E a missão de amor foi consumada

Quando sobre mim ficaste ali,
Dentro da irmãzinha tão amada
Fazendo, por instinto, teu xixi.



5
As noites de beleza e maravilha
Que desfrutávamos na pequena toca!
Até hoje emoções em mim provoca
Levando as sensações à minha virilha

Onde coloco a mão, impressionada
Com a persistência da memória
Que volta a deixar-me assim molhada
Só de recordar aquela estória:

Duas crianças tão precoces em se amar,
Em nossa descoberta do prazer
Não pudemos todavia esconder

Por muito tempo a paixão e nossos ritos,
Apesar de eu já estar levando pitos
Da Mutti, que iria nos flagrar.


6
Depois de alguns meses, já na estância,
Quando descobrimos o pomar,
Fizemos o altar da nossa infância
No tronco onde gravei o nosso AR

Na macieira que eu iria retocar
Com Aline, minha amada paulistana
(vinte anos para um A acrescentar
produzindo a ARA grega ou romana

à qual associei o meu destino).
Ali foi que, assim apaixonados,
Fomos pegos num minuto muito fino

Em que deitados nus, após instantes
Em que tivéramos os fluidos partilhados
E estávamos felizes... exultantes.



7
Estávamos, eu e o irmãozinho
Nus e adormecidos sob a fronde,
Eu com minha mão em seu pintinho,
Ele com a mão tu sabes onde.

Foi quando fomos despertados
Por um grito lancinante de horror
E pelos cabelos agarrados,
Levantados do chão, em susto e dor.

E arrastados fomos no caminho
Em lágrimas de dor e humilhação,
Rôdo com a mão no passarinho,

Eu, obrigada a cobrir a minha concha,
Arrastada pelo pulso, meio troncha,
Servindo de galhofa pra peão.



8
Não mais poderíamos juntar-nos
No nosso pomar, ah! nunca mais!
A Mutti decidira separar-nos
Por considerar-nos “anormais”

Enviando meu irmão pr’um internato
De onde voltaria só nas férias
De dois em dois anos, de fato,
“para só pensar em coisas sérias”.

E eu seria vigiada desde então,
Embora isso mais desenvolvesse
Meu poderoso dom de sedução

Para aliciar, e conseguir
Algo que afinal me resolvesse
A questão crucial de prosseguir.


9
Agora, tanto tempo já passado,
Tudo em seu lugar foi colocado;
Tenho meu irmão e minha amada,
E minha mãe há muito foi deixada

Na colina em sua mais triste manhã,
Onde estão também Joachim e Frida
Meus avós alemães, e a pobre irmã
Solange que lhes era parecida.

E que tanto atormentou a minha vida
No entanto produzindo novo rumo
No destino desta Alma perseguida.

Mas saibam que isto tudo é o resumo
E tudo foi purgado no caminho:
A vinha, o pomar, a ARA e o vinho.



Epílogo

10
Ah! amado Pampa, meu destino!
Nestas pradarias morrerei
Depois do toque, ao longe, do meu sino
Aquele que, na certa escutarei

Naquela derradeira cavalgada
Pelo mar das coxilhas navegando,
O cabelo ao vento, em disparada,
A mão de Rôdo no meu seio palpitando.

O Vati, Aline, eu e a infância
De Hans e Christian, Patrícia e Pedrinho
Correndo juntos, comigo, no caminho...

E a herança da safra em vinho tinto
Transfigurando em Éden, que pressinto
A beleza final da minha estância!

20/06/2006

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

No quarto de Alma Welt ( pintura de Guilherme de Faria)


Embora esta pintura (óleo s/tela, 60X50cm ) tenha sido pintada pelo mestre em 1967, portanto Alma ainda nem tinha nascido, Guilherme a enviou a mim, hoje, pois considera que seria uma antevisão da Alma, que ele encontraria somente em 2001, quando a procurou no ateliê que ela montou em São Paulo(por apenas três anos), e descobriu sua literatura, que o deslumbrou, a ponto de considerá-la sua poetisa predileta entre todas da literatura mundial, que por sinal ele conhece bem. Além disso Guilherme a considera sua última e definitiva Musa, e fez dela inúmeros retratos em pintura, desenho e gravura, para os quais Alma posou. O sofrimento do mestre com a morte da Alma, quase o matou. Agora ele se dedica às suas edições ilustradas por ele, e a pintar de memória novos quadros de minha irmã, sempre despida, pois ele diz que Alma Welt era "a mulher mais bela do mundo", e "uma alma nua".

domingo, 5 de agosto de 2007

Declaração (de Alma Welt)

Vem, amor, e ergue a minha saia.
Verás que nada tenho sobre mim
Senão esta pele que desmaia
E o meu próprio cheiro de jasmim.

Ah! Tenho essa penugem descorada,
Natural, meio gringa, te garanto...
Mas, olha minha conchinha nacarada
Que quando está alegre é como pranto.

Vê: não caibo de amor na minha pele
E meu corpo clama em polvorosa,
Cada curva feliz em que se rele.

Então me toma e farta-te de mim,
Para que eu floreça como a rosa
Com que me comparaste em meu jardim!

21/12/2006

Oferenda (de Alma Welt)

Esta noite vou dar e receber
As dádivas do amor que mereci.
Sou bela, estou nua e antevi
Teus passos antes mesmo de te ver.

Coloco-me de bruços, não! de quatro,
Como outrora as nossas ancestrais,
Oferecendo a colina para o mastro
E a visão de delícias desiguais.

Se vieres por trás, é uma fenda,
Por cima um botão também rosado,
Mas garanto-te, não faço a encomenda:

Não precisas ser precipitado,
Por qualquer dos dois que começares,
Paciente aguardarei tu revezares.

12/12/2006

Debaixo da minha macieira (II ) (de Alma Welt)

Debaixo da minha macieira
Por sagrada que é, fui desnudada.
Podia ver a guria nua inteira
Pela primeira vez a gurizada.

O bandinho luxurioso me seguia
E foram-me rasgando o vestidinho;
A calcinha resistiu, mas sucumbia
Quando eu já cobria ali e meu peitinho.

Então, nua, de repente abri os braços
Já que estava em cacos minha viola
E já sentia eu os meus mormaços,

Pois pensando refrescar aquele ardor
Que a alma dos guris tão cedo assola,
Urinei-me perna abaixo sem pudor...

sábado, 4 de agosto de 2007

A corça no paiol (de Alma Welt)

Quando guria de apenas doze anos
Estando de férias na fazenda
De uma tia que agora virou lenda,
Dei por primeira vez meu pobre ânus,

Não propriamente dado, com certeza,
Pois me foi tomado mesmo à força
Num paiol onde se achava esta princesa
E onde fui encurralada como corça.

E me lembro só do pó ali dançando
(entre as tábuas a luz era ofuscante)
E de um ovo a clara lambuzando

Meu branco trazeirinho invadido
Por um mastro grosso e encardido,
Que não era certamente de um infante...

16/01/2006

Nota da editora

Estarrecida, já tinha tomado conhecimento deste episódio através do conto "As Férias da Infância da Alma", publicado nos Contos da Alma, de Alma Welt, pela Editora Palavras & Gestos em 2004. Alma teria sido estuprada aos doze anos numa outra fazenda muito longe daqui, por um homem adulto, que ela descreve como um primo distante, de olhos verdes, não sei se alegoricamente... (Lucia Welt)

Eu, de meu cão (de Alma Welt)

Uma tarde, saindo com meu cão
Senti forte apelo da bexiga
E como, pensei, um cão não liga,
Tratei de agachar-me e ali no chão

Fazer sobre a relva o meu xixi
Pois eu lera sobre as donzelas celtas
Que urinavam na charneca por ali
E creíam que as fazia esbeltas.

Mas eis que inusitado entra o cão
Na estória e também dentro de mim
Que não tivera, ai! nem tempo nem ação

Pois montou-me num tom peremptório
E fisgando-me co'aquele arpão carmim
Fez-me ver de quem era o território...

15/12/2006

A centauresa (de Alma Welt)


Quantas vezes saí pela cancela
A cavalgar a minha égua preferida
Que me amava por eu montar sem sela
E por sentir-me nua em seguida

Ao desvencilhar-me do vestido
Assim que atingia a pradaria
Para num percurso sem sentido
Estar ao léu, ao vento e à alegria.

Então, ao derrapar-me no local
Sob meu umbral deliqüescente,
Estacava, era hora de descer

Ou melhor, deitar e enlanguecer
Estendida no lombo paciente,
A estranha centauresa horizontal...

08/12/2006

Nota da editora:

A ilustração deste soneto, de autoria de Guilherme de Faria, foi feita originalmente para o poema "A Amazona" do ciclo de poemas "O Circo", escrito por Alma em 2002( vide O Circo, de Alma Welt, no Leia Livro). Ao rever agora o livreto lindamente ilustrado pelo mestre, com desenhos feitos a pincel e tinta nanquin, espantei-me com a coincidência de postura da Alma nas costas do cavalo, antevista pelo pintor, pois o poema do Circo não discreve esse curioso lance, que Alma realmente praticava: deitar-se de costas, sensualmente, no dorso de seu cavalo. Guilherme antecipou em desenho o que a Alma viria a narrar em soneto anos depois. Realmente, os artistas são videntes...

Os Segredos da Palha (de Alma Welt)

Quando no galpão eu me encontrava
Com o meu irmão ou minha prima,
Uma vez na palha ali de cima,
Eu podia vigiar quem adentrava.

Mas um dia, um deles cavalgando
A potranca que era a sua alma,
De repente percebi a mãe entrando
Pela grande porta e nada calma.

Então apertei meu visitante
Numa senha sutil, e não bastante,
Segurei-o confirmando a acolhida

E ficamos assim, ele bem rijo,
No melhor minuto da minha vida,
Em que fui palha, leito e esconderijo.

06/01/2007

Eros-parnasianismo (de Alma Welt)

Vem, irmão Adonis, sobre mim...
Como é doce sentir o teus cabelos,
E logo, estando nus, os teus pentelhos
Como o adejar de um querubim

Sobre o monte da divina Afrodite
Nascida das espumas de si própria,
Da concha nacarada em cornucópia
Que não de outros mares, acredite!

E quando penetrares nos umbrais
Assim que o nácar das barreiras rompas
Poderás, senão ouvir as minhas trompas,

Mas aquosos murmúrios indizíveis
Que aos comuns podem mesmo ser rizíveis
Mas que aos eleitos costumam ser fatais.

05/01/2007

Pesadelo de uma noite de verão (de Alma Welt)

Ninfa, por dois faunos me encontrei
Perseguida e esbaforida em fuga vã
Buscando a proteção do velho Pã
Que me acolheria e era o rei.

Mas eis que alcançada fui na entrada
Do seu labirinto onde aos gritos
Fui por dois priápicos cabritos
Empalada pela frente e retaguarda.

E foi debalde o choro e súplica
Pois por uma noite e uma manhã
Fui pasto, ou pior, uma rês pública

Porquanto masturbando o bode Pã,
Assistia como uma celebração,
Dionisos, e mais todo o panteão.

5/1/2007

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Sonetos Luxuriosos da Alma (de Alma Welt)

Prólogo
1
Hoje acordei desesperada
Rolando no meu leito como outrora
Quando a presença era esperada
Do cavaleiro que viria a qualquer hora.

E pus-me a gritar na vã ardência
Com meus dedos plantados como um marco
No meu triste corpo em sua carência
De perfeita seta sem... o arco.

E então levanto sem que sequer me vista
E vou para o ateliê ainda nua
Sabendo que é possível assim ser vista

Por aquele passante da minha rua
De quem sempre sonhei, semi-acordada
Uma audaz visita inesperada.


2
Invada-me, amor, levante a trégua,
Com força, assim, como a uma fêmea,
Como um guri matuto a sua égua
Barranqueira, e nada de “alma gêmea”.

Coloque-me de quatro se quiser
Apoiada nas costas da cadeira,
Introduza sua vara assim certeira
Onde melhor lhe aprouver.

Mas quero que olhe enquanto faz
Pois meu prazer aumenta percebendo
Que sou olhada, aberta, assim por trás.

E se gozar bem fundo dentro em mim,
Só saia para ver-me oferecendo
Um buquê de flores brancas de jasmim.


3
Ponha-me, meu monge, à tua mesa,
Quero dizer, deitada mesmo sobre ela.
Levanta a tua batina assim tesa
Enquanto ergo bem alta a minha canela.

E que olhes assim, antes do tiro,
Pois o quero certeiro no furinho
Que tu sabes bem o qual prefiro,
Já que qualquer dos dois será teu ninho.

Andarilho, no entra e sai da tua andança
Não deixes de me olhar assim por trás
Para observares a lambança

Que produzes nesse corpo hospitaleiro
Que sempre acolheu teu leva-e-traz,
Portas abertas, como ao monge seu mosteiro.


4
Esta manhã, gentil, nem me acordaste
Com a tua doce interferência
No meu lindo sonho, e penetraste
Minha fenda por trás, mas com prudência.

E ficaste assim, adormecendo,
Gostoso, quentinho dentro em mim
Até que já molinho e escorrendo
Saíste, pois teu sonho teve fim.

Depois ouvi o som do teu xixi
E do banho após o barbear
Enquanto eu vazava por ali

Molhando o meu lençol com tal carinho
Que chamei-te antes mesmo de acordar
Para que voltasses ao teu ninho.


5
O meu amor adora os meus pentelhos
Tanto quanto eu, que ao acordar
Os contemplo longamente nos espelhos
Constatando a perfeição de emoldurar

Que eles, meus pelinhos, conseguiram,
Em torno de lábios tão rosados
Que nunca uma mentira proferiram,
E o seu amor declaram, mas calados.

E então eu me viro oferecendo
O revés que ele adora mais ainda,
Já que minha bunda é mesmo linda,

Enquanto entreabrindo ele vai vendo
Um botão rosado, apetitoso
Um mistério de gozo... doloroso.


6
Amor, hoje podemos variar,
Pois convidei a minha amiga pr’um pernoite,
E se fores amável, vais voltar
E nos pegar, para brindar-nos c’um açoite.

O rabo-de-tatu está na estante
Está tudo combinado, eis a senha:
Quando chegares espera um instante
Para ouvires-me exclamar “Ai! Amor, venha!”

E então entrarás meio vermelho,
E fingindo-te traído gritarás:
“Ah! Safada! Então esse é o espelho

Que dizias ser a tua companhia,
Enquanto eu só contigo dividia?
Agora, os três dividiremos este relho!”

7
Ontem, meu amor, foi uma glória:
A farsa funcionou à maravilha,
Minha amiga acreditou em toda a estória
E deixou-se castigar como uma filha.

Depois nos colocaste assim de quatro
E passaste em revista a retaguarda
Chegando a tirar-nos o retrato
(estou louca pela foto revelada!)

E então nos impuseste o castigo
Final e mais completo, o de Sodoma,
Dizendo que assim o amor se soma

À dor do flagelo merecido.
Depois de fustigadas pelo amigo,
Um botão de rosa... “intro-metido!”


8.
Ai, amor, quero voltar à minha estância,
Eis o dilema de ser insaciável,
Já nada pode aplacar a minha ânsia,
Quanto mais amor, mais desejável

É para mim o homem em seu vigor.
E sonho em ser total, completamente
Possuída por trás e pela frente
Com delicadeza ou com rigor.

Sonho, qual princesa ser mimada
Com flores e passeios e carinhos,
E logo em seguida castigada,

Colocada com a perna muito alta
Na cama, para então ser violada
Por todos os amigos, toda a malta!


9

Amor é um turbilhão, um mar de chamas
Que queima como incêndio na floresta,
É ferida aberta sobre as camas
E dói tanto que pouco ou nada resta

Só a ânsia de mais e mais amar
E mesmo virada assim do avesso
É redondamente se enganar
Quanto ao seu fim ou seu começo;

É ficar cega de tanto admirar
E querer o outro devorar
Para senti-lo dentro devorando.

Eis o nosso coração então repleto,
Que vai o Hermafrodita aflorando,
O ser primordial, uno, completo!


Epílogo
10
Levantei-me esta manhã e eis-me curada!
Posso passear sem ser notada
Senão como aquela bela Alma
Que parece ser feliz e muito calma.

O mundo saberá meu desvario
Apenas nestas “mal traçadas linhas”
Num futuro risonho e menos frio
Onde as mulheres não serão tão comezinhas

E então apaziguando meus furores
Vou procurar conter-me (não gargalhem)
Para deixar “as partes” descansarem


Embora minha prudência seja pouca.
Aguardem-me, pois, meus bons leitores
Que em breve voltarei ainda mais louca.

2005

Sonetos Proibidos da Alma (de Alma Welt)

(14)
(Este ciclo de sonetos, como era costume da poetisa Alma,
contam uma estória real (acontecida com ela) se lidos em
seqüência, e na ordem correta. Aconselho o leitor que assim
o faça afim de aproveitar essa característica tão original
da autora. Não obstante os sonetos lidos avulsamente também guardam seu encanto.) (Lucia Welt)

Prólogo
1
Sombras volúveis, sorrateiras sombras
Que avançam sobre o dia em seu ocaso:
Assim também caminho nas alfombras
De um passado tão presente e nada raso

Que carrego dentro em mim qual um segredo
Que, no entanto, grito aos quatro ventos:
Amor sagrado que me causa este degredo
E conduz estes meus gestos quase lentos.

Glória, maldição, honra e vergonha
Convivem em minha’alma neste amor,
Um filtro de delícia e de peçonha,

Pois maldito e proibido pelo mundo,
É como pura luz vinda do fundo,
E sua essência mesma é pura dor.


Naquele jardim...
2
Naquele jardim da nossa estância
Onde corríamos em meio a vagalumes
Que ornavam nossos corpos com seus lumes
Quando fruíamos a noite dessa infância,

Ali entre touceiras multicores
Mas azuladas pela luz desse luar
(ainda sinto das flores o perfume
e as batidas do meu peito a galopar...)

Deitada sob o peso de um guri
Sentindo palpitar seu coração
E entre minhas coxas seu “pipi’,

Calado meu gritinho, amor e dor,
Pelos lábios ardentes de um irmão
Precoce, amoroso... estuprador!



Sob a a macieira...

3
Sob a macieira do pomar
Onde gravei meu coração,
Aí o encontrava pra brincar
Num balanço, por si só uma canção.

E lembro que voava aos seus impulsos,
Sentindo como quem quase desmaia,
As carícias do vento sob a saia
Causando um arrepio até os pulsos,

E então eu me lancei naquele dia,
Do balanço em seu ponto mais alto
Para cair, morrer como quem cria,

E assim logo amparada por seu braço
Poder entregar-me como um salto
De quem tem no pescoço um doce laço.


Ai, Rôdo, eu me vejo...
4
Ai, Rôdo, eu me vejo ali caída,
E em seguida à tua doce aflição,
Em choque no alcatifado chão,
Antes de sentir a saia erguida.

E então (a minha vulva ainda sente)
Com teu pequeno pênis já tão ávido
Me penetraste o hímen complacente
Com teu ardor precoce, tão impávido.

E ficaste em mim, mas só por ti,
Entrando e saindo, encantador,
Que eu não mais sentia qualquer dor;

E resolveste, por seres um guri,
Gemendo de um modo assustador,
Fazer dentro de mim o teu xixi.


Ai, Rodo, ai Pampa...
5
Ai, Rôdo, ai Pampa, em meu pomar
Me lembro, depois, ao levantar,
Como sentia as coxas escorridas
Desde as pequenas fendas invadidas

E esse rio de urina (assim pensava)
Corria até os meus pezinhos
Produzindo uma volúpia que assustava
Por fazer-me desejar mais tais carinhos.

Pois no teu ardor, meu pobre Rôdo,
Quiseste colocar teu penisinho
No outro orifício cor de cobre

Depois de introduzir na fenda nobre
Puseste-me de borco, em grito: “eu fodo!”
Para invadir o meu sujo buraquinho.


Naqueles dias...
6
Naqueles dias eu vivia intensamente
Sentindo a minha carne degustada,
Guria, infanta nua, devassada,
Queria ser assim eternamente.

Mas lembro, todavia, o lance estranho:
Minha mãe, de noite, desvelando,
Tirando-me a calcinha, examinando,
Na pombinha, vestígios: sangue e ranho.

Mas eu já descobrira a plenitude
De ser pequena fêmea, mais que “mana”
Fazendo do meu “dar”, uma virtude.

E querendo mais doar, mais ser tomada,
Pelo amor e pela dor de ser humana,
Por coragem e desafio à finitude.


Tanto que voltei...
7
Tanto que voltei ao meu pomar
Tanto que o irmão me conheceu
Tornando-se um amante exemplar,
Inocente como a prece de um ateu.

Erguemos nosso altar a Dioniso
Defronte à minha ara, a macieira;
Não ligamos aos sinais e ao aviso
De Matilde, minha aia alcoviteira.

Tomados de uma tão doce paixão
(posso ao menos assim falar por mim)
Embora se tratasse de um irmão,

Pois viril demais, e com malícia
Precoce, produzia mais delícia...
Piá, que só não era um querubim.


Ó pequena divindade...

8
Ó pequena divindade alcoviteira,
E numes que constante eu invocava
Diante da minha bela macieira
Onde tão feliz me desnudava.

Pequena hetaera infante eu me tornara,
Votada a uma tragédia, fosse frágil
Se não à alegria devotara
Minha vida de poeta, mente ágil

Mas que guarda o horror daquele instante
Em que flagrados fomos e humilhados,
Pelos pulsos do solo levantados

E obrigados a cobrir, naquela trilha,
Com a mão o doce pássaro cantante
Que incauto nos pousara na virilha.



Muito tempo passar-se...

9
Muito tempo passar-se haveria...
Não pudemos repartir a juventude
Pois a águia guardiã da tal virtude
Expulsou-nos do pomar da alegria.

Rôdo, meu irmão, ah! Quanta pena...
Não podermos caminhar naquela senda
De um doce paraíso de encomenda,
Pois algo pune a inocência e nos condena.

E se ambos conservamos a pureza,
Tanto maior a rebeldia e nosso mérito:
Não poderão tratar-nos com dureza,

Que continuo a amar o amor pretérito,
O amor presente e talvez algum futuro
Mantendo o coração alegre e puro.



Epílogo
10
Nesta estância tão antiga, dos avó,
E antes deles outros tantos como nós,
As paixões escorrem pelas vinhas
Ou escalam as paredes qual gavinhas.

Mas nada se assemelha ao meu segredo
Que abro, meu leitor, a ti, sem medo
Pois és meu confessor sem rosto ou voz,
Que espero não se torne meu algoz.

Assim vou purgar ante vocês,
Cada momento, assim, ou cada lance
Para que o sentido então alcance

Das emoções tão vivas que causaram
As carícias venais, mas muito doces,
Pois, minh'alma, não o corpo, violaram...

04/10/2004

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Como posso prosseguir... (de Alma Welt)

(13)

(dos Sonetos da Pintora (IV)
(3)

Como posso prosseguir acreditando,
Manter aceso o olhar e o desejo,
Se o coração carente traz o ensejo
De perder-se no outro, assim, amando?

Refiro-me à pulsão que cria, à Arte,
Da qual não posso certamente prescindir.
Mulher-artista, como prosseguir
Se o doido coração quer liquidar-te?

Ser só mulher, entregue, possuída,
Fêmea total, às raias da odalisca,
Da puta gloriosa e assumida...

Assim quer o branco corpo, o alvo seio,
Os lábios cheios de paixão arisca,
As amplas curvas com a fenda ao meio!



(4)

O quadro que pintei hoje, me guia,
Amanhã serei outra, em plenitude.
A obra que não fiz neste meu dia
Nunca verá sua completude,

Assim dizia um velho amigo meio sábio
Enquanto eu me achava "meio grávida"
Quero dizer com isso o quanto hábil
Era o meu amigo e... eu, tão ávida!

A sede de viver me confundia
E na louca juventude dispersiva,
Por delicadeza me perdia...*

E assim, entre ânsias e desejos
Quanta hora perdida e quão lasciva
Era esta bela Alma, e... quantos beijos!


*(Paráfrase do célebre verso de Rimbaud:
"Par délicatesse j'ai perdu ma vie")

5

Vem, minha amiga, vem comigo
Para o quarto, já que queres premiar-me.
Pintei o teu retrato, e não consigo
Deixar de, a ti, agora querer dar-me.

Terás de possuir-me de algum modo.
Quero que entre em mim o que tiveres:
Lábios, língua, dedo, enquanto rodo
Como frango no espeto. Não me queres?

Adoro sentir-me aniquilada
Depois de ser assim tão obediente...
Não sou mais a pintora, não sou nada!

Conquanto eu não te veja preparada,
Quero, enquanto ainda esteja quente,
Com este relho de meu pai ser fustigada.

11/11/2005

O segredo do meu vinho (de Alma Welt)

(12)

(dos "150 Sonetos Pampianos da Alma")


Ali onde a colina encontra a lua
Como imenso sonho branco a flutuar
Contra a nave em silhueta do lagar
Quantas vezes sobre as uvas me pus nua!

A invocação de Dioniso é o caminho
E deve ter ritual inusitado:
Somente o meu corpo despojado
Pode chamar as forças do meu vinho.

Então eu sento sobre o sangue do lagar
Em puro êxtase, no tempo de sangrar...
Eis revelado o segredo do meu tinto.

Não me venham dizer qu'isto é de demos,
Não percebem o buquê como é distinto?
Ao aroma e cor da Vida, ah! brindemos!

05/01/2007

Uma vez, guria, vi (de Alma Welt)

(11)

Uma vez, guria, vi, estarrecida,
Um peão e sua chinoca no galpão.
Sobre a palha, seminua, estendida,
Ela gemia como em parto ali no chão.

Tinha as pernas no ar e muito abertas
E o gaúcho mergulhava em suas coxas...
E eu, de onde estava, entre frestas
Via detalhes que poriam outras roxas.

Sim, eu via como aquilo adentrava
Chafurdando com estalos obcenos
Enquanto sangue e ranho exudava

Melando palhas agitadas qual acenos
Grotescamente coladas nas virilhas
Num flagrante de estranhas maravilhas!

20/12/2006

Amores meus, fantasmas... (de Alma Welt)

(10)

Amores meus, fantasmas inconsúteis
Que povoam minha noite assim molhada,
Possuam-me, ai! não sejam inúteis,
Devorem -me, me quero aniquilada!

Tenho-os a todos dentro em mim,
Lanço mão de seus segredos, das malícias
As doces perversões de querubim,
Os fundos vales , as praças de delícias.

Lembra, amor, aquilo que gostavas?
Punhas-me de quatro para olhar-me
Até eu escorrer sem nem tocar-me,

E súbito, teu sumo em chafariz
Quase me afogava, por um triz,
Enquanto os meus lábios violavas.

05/12/2006

O Secreto Perfume (de Alma Welt)

(9)

Quando nua eu me olho nos espelhos
É quando vêm as lembranças dos amores,
As mais doces carícias nos pentelhos,
As mucosas exalando seus odores,

O arrepio na nuca, o sussurro
Ecoando surdo em minha orelha
Num crescendo até virar um urro
Que a um grito de dor se assemelha.

Então entra uma certa crueldade
Como um querer morder ou devorar
Ou beber-me até a saciedade...

E me entrego assim despudorada
Pra que afinal me sintam exalar
O mais secreto perfume da Amada!

12/12/2006

domingo, 22 de julho de 2007

Amor meu... (de Alma Welt)

(8)
(Estes dois sonetos foram "pinçados" do livreto "Sonetos da Pintora"II
de Alma Welt, por serem bela e delicamente eróticos, e
caberem neste blog, a meu ver. (Eles são o n°6 e o 10 daquela série. Vide as páginas da Alma no site Leia Livro.)
(6)

Amor meu, coração, alma e poesia,
Pintura em minha veia, cantoria,
E a dança dos meus gestos quando pinto
Diante da tela branca em que me sinto.

Assim também no leito me coloco
Passiva agora diante do teu foco,
Que a pintora és tu, neste momento,
Para fazer tua obra, teu evento.

E se souberes combinar as minhas tintas
Colhendo-as onde fluem generosas
Terás na mesma tela em que pintas

O duplo retrato, arte e vida,
Que vejo em mim e ti, enquanto gozas
Sobre a minha boca agradecida.

10/10/2004


Epílogo
(10)

Quero pintar, perder-me, poetar,
Amar, ser amada e possuída
Pois que tudo quero desejar,
E desejada, ser a própria vida.

Confundindo-me com aquilo que desejo
Entregar-me assim nua e sem pejo,
Atingida pelo amor em pleno cerne
Através do sexo e da epiderme

Ser a musa de um poeta, gloriosa,
(que jamais me entregaria a um burguês)
Ser então cantada em verso e prosa

Depois, quando o Tempo adverso
Atingir-me como a todos sempre fez,
Feliz poder mirar-me no meu verso.

10/10/2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Sonetos da Angústia ( de Alma Welt)

Alma Welt

Sonetos da Angústia

Índice

1.Prólogo
Noite escura, declive...
2. Quantos planos, amores...
3. Amor meu, tesão...
4. Na manhã do auge...
5. Quando afinal chegou...
6.E assim começou...
7.Aline, reconheço...
8. Aline, eu me lembro...
9. Ali fui encontra-los...
10. Vou perder-te, Aline...
11.Noite, noite atroz...
12. Volto ao meu jardim...























Alma Welt

Sonetos da Angústia

Prólogo
1
Noite escura, declive, estreita via
Nos quais me vejo, nestes dias, novamente,
Sabendo que este ciclo já havia
Aparecido outrora em minha mente,

Mas que eu julgava ter exorcizado
Como tristes demônios da incerteza,
Afastando fantasmas do Passado,
Da dor de um destino sem clareza.

Agora aqui me vejo em novas garras
Do monstro interior que a alma teme
Debatendo-me entre pesos e amarras

Neste barco da vida já sem leme
Mas que ainda almeja o mar e o mundo
Ainda que no cais se vá ao fundo...



2.
Quantos planos, amores, ilusão!
Quanto ideal que na alma mal perdura,
Perdida a esperança e a pulsão
Que me atirava esmo e com candura

Na torrente obstinada e atrevida
De um rio feroz e obstinado
Correndo para o imenso mar da vida,
Mas sendo o próprio leito o fim e o fado!

Então, percebo enfim a ironia,
E enxergo no fluxo deste rio
A própria resposta que eu pedia

E veio até mim, ramo florido,
Num gesto de aparente desfastio,
Num remanso à margem recolhido.


3.
Amor meu, tesão, alma e ternura,
Eu tive do amor a plenitude
Dos meus trinta anos a loucura,
Para amargar agora a finitude.

Aline, meu modelo deslumbrante,
Imagem de beleza e de candura
Cuja falta n’alma mesma inda perdura
Mas com ligeira nota redundante,

Pois se bela sou, o quê procuro?
Porquê o vazio e tão triste carência,
Por quê, Amor, revela-te tão duro?

E arrasto-me em mim, na solidão
De uma dor que revela insuficiência,
Mistérios do meu rico coração...


4
Na manhã do auge deste mal
Ligado à solidão e à carência
Procurei nas amarelas o ramal
Do cadastro de modelos de uma agência,

Cuja secretária Lusinete
Me deu a ficha do setor “modelo nu”
Que eu podia ver pela Internet
E então escolher como um menu.

E foi assim que vi Aline, de primeira,
Um rosto acachapante de beleza
E com ligeiro laivo de tristeza

Que me conquistou como uma rima
E pareceu-me a imagem derradeira
Que faltava ao verso de auto-estima.


5
Quando afinal chegou o meu modelo
E o interfone anunciou como ao “Amor”,
Coloquei-me bem de frente ao elevador
E abri os braços com num apelo,


Saudação ou abraço festejante
Como quem espera filha pródiga,
Mas que então desfiz no mesmo instante
Recuando pra a soleira, bem mais módica.

E a porta abrindo, me vi diante da beleza
Mais pura e perfeita jamais vista
Que avançou com perfeita realeza

Também com o seu abraço aberto,
Disse, girando em minha sala mista:
“Que belo tudo aqui... Tá tudo certo!”


6
E assim começou o nosso caso
De amor e de loucura, minha Aline,
Por quem me ergueria em meu ocaso
Em pleno verão, sem que eu atine.

Pois minha alma velha em corpo jovem
Precisa de injeção de juventude
Para que afinal se erga e mude
Em ágil, como os dias que se movem

Neste ateliê febril de amor e arte
De onde saem telas e poemas,
Desenhos e sonetos, como gemas

De um garimpo feliz e sem descarte
De poluidor mercúrio, e n’outros temas
Refazer-me, Aline... por amar-te!


7
Aline, reconheço, eu te seduzo
No ateliê, como se fosses aprendiz.
Eu te envolvi como um novelo no meu fuso,
A ti, que eras noiva, e até feliz.

Até que te atirasses nos meus braços
E faminta como eu te revelaste,
No amor e na ternura dos abraços
E carícias que também me prodigaste.

E que tardes! Tanto gozo exaltado,
Experimentamos no leito, teta a teta
E até sobre o assoalho pintalgado,

Onde desnudadas confundimos
Modelo e pintora, sem paleta,
Corpos e funções, que assim fundimos.



10
Aline, eu me lembro, começaste
A revelar teu jogo ao namorado
E como a um e outro revelaste
A natureza do prazer fruído e dado.

De repente estava assim acontecendo
O ménage-a-trois inesperado
Mas previsível, na verdade, neste quadro
Tão ambíguo, que estávamos vivendo

E foi assim, no auge da volúpia
Que teu Pedro mudou então o jogo
Por cobiça ou mesmo por astúcia

E Ulisses desastrado e demagogo
Pretextando um ménage sem tramóia
Propôs encontro no novo “Café Tróia”.


9
Ali fui encontrá-los, vou lembrando
Como pra isso me flagrei me enfeitando!
Entrei no café novo, a armadilha
Que teu Pedro armou à maravilha

E ali no ambiente barulhento
E fútil, me vi quase devorada
Por olhares cobiçosos da moçada
E depois pelo de um deles mais atento

Que era o teu Pedro, falso Ulisses
Que me viu até antes que me visses,
E tremeu, eu senti, ele tremeu

Sentindo que teu corpo era meu
E como tu tremias ao me ver
Do medo que me tinhas de perder!



10
Vou perder-te, Aline, é quase certo
Depois do nosso encontro desastroso
A três, naquele bar (Pedro é esperto
E percebeu quanto o ménage é enganoso).

Pois ele me queria como pasto
Junto a ti, somente algo noturno,
E então, vendo-me assim, logo me afasto
E a ti reivindico, por meu turno.

Outrora, eras dele; eu: como “puta”,
Julgava não ter maior direito
E amava num espaço assim estreito.

E eis que se instala a disputa
E és tu que estás no meio, minha amada,
E já não posso te ceder, assim sem luta.



11
Noite, noite atroz e tão sombria
Em que me vejo na descida de minh’alma
Perdida a minha Aline (eu bem sabia
Que não podia perder a minha calma!)

E pus tudo a perder por puro medo
No beco sem saída de uma escolha
Que faria de Aline um brinquedo,
Que sempre me pedia: “Não me tolha!”

E por puro orgulho de mulher
Acabou ficando c’o mais forte:
Aquele que sabia mais tolher...

E eu, fraca mulher (só sei amar
E dar-me, e servir... e mais me dar),
Perdido o meu amor, estou... na morte!



12
Volto ao meu jardim, e ao meu pomar...
Após longa jornada, o casarão!
Percorro o vinhedo e o lagar
Mas não toco vinho ou chimarrão;

Prefiro percorrer estas lombadas
Das obras outrora tão amadas,
Livros do meu pai, tão doloridos
Em solidão, como eu, e tão feridos!

E então retiro um tomo, meio a esmo,
E o abro (meu espanto!): é o Barão
De Münchausen, o mentiroso, aquele mesmo!

E me vejo flutuando em seu cavalo,
Meu cabelo repuxado em sua mão,
Subindo, arrancada deste valo.



13.
Volto ao Jardim de arranha-céu
Onde montei meu ateliê
E onde em telas ou painel
Plantei pequeno mundo, que se vê.

Como Aline, no dia em que chegou
Eu giro e olho em torno meu cenário
E percebo como o mundo meu é vário,
E como me bastar sendo o que sou.

Assim, comigo vou reconciliar
A mim mesma, fazendo minha parte
Com Deus, que me deu beleza e arte.

E entrego meu destino, apaziguada,
Sabendo que estarei mais elevada
Quando de novo o interfone ressoar...

FIM

03/11/05

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Novos Sonetos da Alma - A Viagem (de Alma Welt)

(Os ciclos de sonetos da Alma quando lidos em seqüência
e na ordem correta contam uma estória de amor (ou paixão) completa, com começo, meio e fim. Por isso aconselhamos os queridos leitores a assim fazê-lo para apreciarem essa curiosa característica da nossa poetisa,
embora os sonetos ao mesmo tempo tenham autonomia e possam ser lidos avulsamente. (nota da editora)

Novos Sonetos da Alma
(A Viagem)

Prólogo

1
Cai a noite, como tampa marchetada
De estrelas e memórias, sobre a mente,
No silêncio que me põe mais acordada
Minha vida vai passando, tão fluente

Ante meus olhos, que uma vaga nostalgia
Mantém semicerrados na neblina
Como sonâmbula a vagar na noite fria
Levada para onde o ser se inclina

E as memórias são mais doces, mais amenas,
Perspassando o coração que não desvia
Desse bando noturno de falenas.

Vejo, então, os meus amores desfilando
Como espectros na noite, me cobrando
O amor fiel, sem fim, que eu prometia.



Crazy Horse

2
Amor meu, desperte-me as centelhas,
Estou plena de ti, assim, por dentro
Mas falta-me o teu sopro, teu alento
Por fora, na minha nuca e nas orelhas.

Que falta me faz o teu abraço!...
Teu corpo assim colado nos meus seios
Teu membro em permanente inchaço
Procurando-me por todos os seus meios

Adentrar-me, assim, quase varada
Sofregamente, depressa, já sem freios
Como um cavalo louco em disparada

Pelas sendas da minha carne devassada
Que se entrega como ouro nos seus veios
Desta terra prometida, conquistada!



Luso coração

3
Estou triste, afinal, que coisa brava
Pr’aquela que cultua a Alegria!
Minha alma germânica vencia
O luso coração, e comandava...

Cai o vazio, enfim, sobre este peito
Finalmente vencido, extenuado:
Estou triste, estou só, neste meu leito
Que eu buscava manter sempre ocupado.

O amor tinha seu tempo e agora passa,
Deixou-me como era de supor
Pois tudo vai e vem, como na praça

Os passantes, alheios passageiros
Que percorrem anódinos canteiros
Vagando, numa espécie de estupor.



O Vizinho

4
Ando pelas ruas distraída
Mas atenta ao coração que em mim comanda
Sei que sou olhada, percebida,
Mas finjo como alguém que apenas anda

Por andar, por aí, assim a esmo
E louca, acredita ser achada
Por aquele seu amor, pelo Amor mesmo
Bastando que se ponha na calçada.

Estou perdida, volto envergonhada
E pego o elevador pro meu apê
Com um suspiro mal a porta foi fechada,

E logo ruborizo, ante um vizinho
Que esqueceu a sua chave e não me vê
Procurando nos bolsos, coitadinho.



O Pião

5
Lanço quadros a esmo, em desatino:
Que me resta, então, senão pintar?
Não, não devo assim me maltratar
Blasfemando contra o dom e o destino.

Devo lembrar que sou artista, e que me basto!
Mas, ai, quero chorar, morrer, quero gritar
Sem amor, sem ele, o Nefasto,
Quem sou eu, quem sou, se não amar?

Devo, pois, de mim me envergonhar?
Não és ninguém, ó Alma, que és do Mundo
E não consegues estar sozinha sem chorar !

Volta ao teu eixo, pião, em minha palma
Que estou cambaleando em minha alma
E então temo cair até cair até o fundo!



O Abraço

6
Hoje acordo chorando, tão perdida
Meu corpo cobrando seu contato,
O abraço que me deu em despedida
O sinto em minha pele, pelo tato

Mas dói e arde mesmo qual ferida
E me contorço buscando recompô-lo
No espaço em que me encontro inserida
Buscando o seu contorno, sem consolo.

Tateio-me, abraço-me, introduzo
Meus dedos em fendas e orifícios
Que encontro no meu corpo tão confuso,

Em meus seios, assim manipulados,
Tateados, somente em artifícios,
Meus punhos, em súplica juntados!...



A Viagem

7
Faço as malas, sem forças, muito lenta.
Preciso sair deste buraco,
Pegar uma estrada sonolenta,
Dormir, assim levada como um saco

Sem saber ao certo o meu destino,
Espero encontrá-lo por acaso,
Contradição em termos, que eu atino
Perdida em devaneios, sem atraso,

Num percurso de rumo ignorado,
Que assim quis ao comprar o meu bilhete
No primeiro guichê que foi achado.

Buscando dissipar-me vou a esmo
Como cinzas jogadas na corrente
De um rio que nem sabe de si mesmo.



A praça

8
Me sento nesta praça ignorada
Apenas com meu saco de viagem
Numa aldeia qualquer, nesta parada,
Deixo o ônibus seguir como uma aragem.

E sinto a sensação de liberdade
De estar assim desamparada,
Apenas com meu ser e minha verdade
Embora da tristeza acompanhada

Quando em volta um burburinho principia,
Da beleza e juventude que me guia
Dou-me conta, agora já sem tédio.

Montarei meu cavalete nesta praça
Defronte a esta igrejinha em sua graça,
Onde Amor talvez comece o seu assédio.



O Encontro

9
Este jovem com seus traços decididos
Olhar azul e cabelos tão compridos
Sentado em minha frente nesse banco
Há horas, percebo, pois é manco,

Seus olhos não param de me olhar
E já vejo que o amor que o está tomando,
De tão grande, afinal, quer desbordar
E dirige-se a mim, já claudicando.

Entrego minha mão, que ele colhe,
Abandonando meus pincéis e a paleta,
Deixo-o levar-me, um tanto mole

Pois Amor aproximou-se sem muleta
Essa era a chave, eu sabia, e a condição
Para este novo despertar do coração.


Aquiles

10
Acordo neste quarto de pensão
Em lençóis que já vejo como meus.
Ao meu lado, este Adônis do Sertão
Que examino, adormecido com um deus.

Sua perfeição é destacável
Desta pouca imperfeição de um calcanhar
Que, como Aquiles, enternece e faz sonhar
Com um herói que é menino e vulnerável.

E espero o despertar do novo amor
Que soube atingir-me o coração
Com seu silêncio, diamante tão sem jaça

Pois seu olhar ardente em devoção
Nem por sombra desviou-se de pudor
Quando encontrou o meu naquela praça..



O poeta

11
Estou feliz novamente, estou amando
E sou amada, o que pra mim é quase o mesmo.
Este jovem do sertão, se levantando
Revelou-se poeta com torresmo.

Estou brincando, é claro, tão contente
Que não há rima nova que eu não tente,
Ou experiência pura, que desperte
Uma nova emoção, que me diverte.

Não me canso, pois, de dar-me inteira
Ao pequeno poeta decidido
Que logrou atingir-me de primeira

Com a seta certeira de um olhar
Embora sua poesia sem sentido,
Confesso, deixa um pouco a desejar...


A Volta

12
Estou de volta, a mim e à minha arte
Celebrando a alegria no ateliê.
Rolei um pouco por aí, em qualquer parte,
Amei e dei bastante, já se vê...

O que importa é amar e até sofrer
Mas ser inteira, feliz e sempre atenta,
Interessada em tudo, e no viver
A vida sob o sol, que se contenta

Em ser, e tudo ser em sendo ímpar,
Viver a vida, o gozo e mesmo a dor
Sem renegar jamais o dom de amar

E mesmo envelhecer, louvando o Amor
Que nos permite imitá-lo, à vontade,
Pois reserva pra si a eternidade.


FIM

23/08/2003

Sonetos Luxuriosos da Alma (II) ( de Alma Welt)

(Os ciclos de sonetos da Alma quando lidos em seqüência
e na ordem correta contam uma estória de amor (ou paixão) completa, com começo, meio e fim. Por isso aconselhamos os queridos leitores a assim fazê-lo para apreciarem essa curiosa característica da nossa poetisa,
embora os sonetos ao mesmo tempo tenham autonomia e possam ser lidos avulsamente. (nota da editora)


ALMA WELT

SONETOS LUXURIOSOS II


Prólogo

1
Belo Pampa meu, ó pradarias
Que viram o meu amor e o meu martírio,
Há quanto tempo assim amar não vias
Esta Alma branca como o lírio

De tuas margens do regato e da encosta
Das suaves curvas da coxilha
Onde Amor encontra e tanto gosta
As minhas belas curvas, que dedilha.

Aqui posso amar em plenitude
E ser, voltar a ser o ser pampiano
Que encontrava na montada a completude.

E corria como os ventos haraganos
Para afinal emborcar nua sobre o plano
Para sentir a chuva quente no meu ânus!



Spaccato
2
Aqui estou de volta ao casarão
Cercado do jardim da minha avó,
Além o pomar e o galpão
C’o palheiro que não mais me via só

Pois ali deitava com meu Rôdo
E rolávamos os dois em gargalhada
Até que o silencio se instalava,
Ouvindo-se somente: “Amor... te fodo...”

Então era colocada em posição
Que por certo não está no Kama-Sutra
Enquanto era degustada como fruta

Por instantes em completa exposição
Pra o meu irmão fruir o meu regato,
As pernas muito abertas... spaccato!



A Fonte

3
Vem meu amor, sou tua cadela,
Expondo-me inteira para ti.
Vê a minha concha como mela.
Agora olha a fonte, bem ali.

Assim de quatro, exposta, toda aberta
Sou tua, beija, chupa aqui,
Mete a tua língua assim experta
Titilando-me, molhada de xixi.

E agora estou pronta, tão melada
Que posso receber a tua vara
Sem que vá doer-me nada nada.

Então, amor, após tanto bombear,
Troca a doce, grossa bomba, de lugar,
E que ela não me seja nada avara.



Complacente
4
Amado meu, desce assim suave
Enquanto enlaço tuas ancas com as pernas.
Penetra-me profundo, sem o entrave
Do hímen que perdi junto às cisternas

Naquele dia em que fomos ao pomar
No poço buscar água para a horta...
Acabamos por na relva nos deitar
E disseste que porias só “na porta”.

“Portinha” tu disseste, na verdade,
Que tudo era pequeno em nossa idade,
Logo era “grutinha” e o teu, “bilau”;

E acabaste enfiando o “catatau”,
Alargando-me o hímen complacente,
Não rompendo-o, ah! tão insistente...



O chiclete

5
Ontem, amor meu, me colocaste
De bruços sobre a mesa da cozinha;
Abaixaste o meu jeans e a calcinha
Que ficaram nos joelhos como um traste.

E abrindo com os dedos, ocioso
Ficaste só assim, admirando
O panorama que disseste delicioso,
Em vez de ires logo penetrando.

E de súbito, então, estando eu tesa,
Juntando a tua saliva que abundava,
Cuspiste no botão, pra minha surpresa,

Mas logo enfiaste a ferramenta
Deslizando com um frescor de menta
Do chiclete que o meu amor mascava.



Orgia
6
Amado, por quê dividirias
Este corpo que é teu até morrer?
Tu sabes que aprecio fantasias
Mas temo o que possa acontecer...

Agora queres dar-me ao teu amigo
Para observares em detalhe,
Olhando-me por baixo até o umbigo
E entrando no momento que te calhe.

E assim, do jeito mesmo que eu previa
Eis que já me empala dupla espada,
Um na frente outro atrás (eu bem sabia!)

E embora me doa a retaguarda
Pelo gozo que a dupla bem retarda,
Como é proveitosa a nossa orgia!



O botão

7
Amo dar-me às raias da loucura,
Tu sabes, meu amor, meu parecer:
Persuadida estou de ser tão pura
Que a moral não pode me deter.

Nada pode destruir minha candura,
Por isso me penetre até o sangue
Aquele que aliar força à ternura
E que afunde em mim como num mangue.

Ah! ouvi-lo chafurdar com estalido,
Sair e penetrar o outro lado
Com o rico caldo já colhido

Saindo para olhar o resultado,
Deve saber apreciar esta visão,
E aurir, desabrochado, o meu botão.



Preâmbulo
8
Amigos, meus leitores, vou contar
O que nunca contei nos meus escritos:
Como puderam esta Alma violar
Sem que depois fossem proscritos,

Cinco jovens, grandes, fortes,
Cinco peões de uma estância
Vizinha, que eu vira em minha infância
E que agora ali estavam, por esportes,

Um rodeio, vacaria, que sei eu?
Desafios, montarias, laços, danças,
O que eu julgava inocente se perdeu,

E o cenário meu, das minhas andanças,
Colhendo sempre-vivas e outras flores
Foi o palco de horror, das minhas dores.



O estupro

9
Eu andava em volúpia, e longa saia
Indiana, eu diria... ah! tão fina!
Sem calcinha por sentir-me feminina
Em deixar que o mênstruo se esvaia

Escorrendo vermelho pelas pernas
(tão brancas, minhas pernas e meu pé,
Tingidos por meu sangue e os espermas
De cinco peões machos, seis até!)

Nem uma hora inteira os satisfaz
Meu corpo nu que desfrutaram devassando
Alternando-se em mim, na frente e atrás,

Até que eu estivesse tão repleta
E meus furos até regurgitando
O grosso caldo que era só a sua meta!



Desfecho

10
Puseram-me de quatro, eu bem me lembro,
Minha alva bunda admirando
Enquanto um enfiava o seu membro
Outros abriam-na olhando

Dois deles meus pulsos seguravam
Ordenhando minhas tetas com as mãos;
O sexto por baixo apreciava
O desempenho do pênis dos irmãos

Que alternavam furor, sofreguidão,
Por uma hora inteira, sem perdão,
Até que me vissem desmaiada.

Depois urinaram sobre mim
Na linda concha aberta, nacarada,
E meu ânus, que ornaram c’um jasmim...



Epílogo

11
Meus leitores, depois desta visão
Creio que fui longe demais
Na fantasia, causando confusão
Talvez, e misturando os canais.

Cultivando minha luxúria extrapolei
Ou atingi de Eros a verdade.
Na dor e humilhação experimentei
O verdadeiro erotismo e santidade.

Sim, porquê sei e aposto até
Que um real prazer ofereci
Ao contar tudo quanto padeci

E jamais saberão (eu tenho fé)
Se aquilo que contei-lhes sem querer,
Foi o fim ou o começo do prazer...

FIM

15/11/2005