quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Peão Negro (de Alma Welt)

1

Havia um peão aqui na estância
Negro como a noite minuana,
Mas ardente e vivo como a infância,
E que era um pau pra qualquer xana.

Na verdade não, só para as tais,
Muito fundas e largas qual gamelas
Denunciando já por suas canelas
Suas bucetas que são como portais.

E justo esse portento me pegou
No bosque, quando, intruso, me flagrou
Pois agachada, em volúpia, eu urinava.

E jogando-me no solo, mas de quatro,
Meteu-me atrás a tora, sem um trato,
E também como portal me inaugurou...



2
Peão negro, retinto e azulado
Que ousaste esta Alma ter tocado
Não por minha brancura impossível
Mas por ser tua patroinha inacessível

Pulando o que seria um grande fosso
E tendo me encontrado vulnerável
A fazer um xixi muito agradável
No meio do bosque antes do almoço

Por trás me empurraste para o solo
E antes que eu pudesse levantar-me
Entraste até o fundo em minha carne

De uma maneira afoita e tão doída
Que tiveste de carregar-me ao colo
Logo após, como uma recém-parida.



3
Me levaste, peão negro, bosque a dentro
Já que eu não podia caminhar
Pois me acabaras de arrombar,
Por trás, do equilíbrio sem o centro.

E então, numa clareira mais ao fundo
Me puseste de quatro novamente
Para olhar o que deixaste imundo,
Rubro ralo vazando docemente.

Então, não resistindo reincidiste
E ficaste chafurdando com estrépito
Tirando e pondo o grande falo em riste

Até que, assim aberta e inundada
Deixaste-me ali, qual ser decrépito,
Nua e suja, em sangue... violada.



4
Voltei cambaleando ao casarão
A escorrer aquele caldo pelas pernas,
Esfarrapada e a sentir-me qual vulcão
Aberto, a vomitar brancos espermas.

E caindo de borco na varanda
Fui acudida pela pobre da Matilde
Me cobrindo de censuras como manda
O costume de sua casta humilde.

“Bah! Eis o que levas, ó guria,
Por seres assim não recatada
E saires por aí meio pelada!”

“Agora ficarás para titia
Pois não terás mais homem que te queira
Como noiva e mulher, selada, inteira!”



5
O peão negro que um dia me pegou
Queria me alargar mas não largar,
E eu não podia pelo prado mais andar
Sosinha, pois o pobre viciou.

E logo me fodia a toda hora
No bosque, na cascata e no galpão
Enterrando-me a sua imensa tora
Na frente e atrás sem mais perdão.

E assim eu já andava claudicando
Com as pernas muito abertas e sangrando
Como em dias de minha menstruação.

E meu pobre ânus... arrombado,
Já não segurava, o coitado,
A carga que era a sua obrigação.



6
E assim tornei-me escrava do peão
Negro como negra é a noite escura
Mas não com o amargor da escravidão
Mas com negros laivos de doçura

Pois que me agradava sujeitar-me
A todos os caprichos do seu charme
Negro como as negras brincadeiras
De ir comendo antes pelas beiras

Pois gostava de lamber seios e lábios,
Os de cima, os de baixo e o botão perto
Em que metia a língua em toques sábios

E logo abrindo bem a minha bunda
Até ver que me punha o cu aberto,
Mais gostando se me encontrava imunda.



7
Um dia novamente fui flagrada
Desta vez pelo negrinho seu irmão,
Quando este me viu sendo empalada
Pelo negro mastro do peão,

Justo no momento de esguichar
Dentro do meu ventre o creme branco
Não faltando nem o lance de mijar
Dentro do meu cu e aquele tranco

Com que retirava após cavar,
Num estalo e golpe súbito, conforme
A visão que queria desfrutar.

Desta vez foi o negrinho quem desfruta
A visão da fonte espúria e enorme,
A jorrar de mim como uma gruta.



8
Assim tornei-me a puta de um peão
Bah! Que doce me sentir assim tão puta
Sabendo que o machão que me desfruta
Era um solitário c'um irmão

E assim não iria alardear
Pois apenas o negrinho nos flagrara,
Exigira a sua parte e então calara
E agora eram dois a revezar.

E tanto agora os dois me disputavam
Que eu era uma cadela o tempo todo
A dar como uma puta que pagavam

Mas somente em visões oferecidas,
Um ao outro dizendo: “Agora eu fodo,
E tu ficas com as sobras recolhidas.”



9
Foi assim que no bosque me encontraram
Naquele dia, rasgada e a vagar
Delirante, os seios nus, que arranharam,
E minhas coxas de tanto me ralar,

Rodo e Galdério me agarraram
E me levaram a Alegrete pra internar,
O que só protestei quando chegaram
Dois negrões, desta vez pra me dopar.

Seminua, amarrada e sem Descartes
Acordei afinal muito obumbrada
E sendo examinada em minhas partes

Mais aberta, invadida, estuprada,
Agora por colheres e espéculos
Em sessões que pareciam durar séculos!



10
E depois o veredito: violada!
Bah! Que novidade, não sabia...
Esperava tão somente a rodada
Que cabia aos negrões que ali havia,

Que eram os enfermeiros e um vigia
E também um interno gigantesco
Com seu jeito de mostrar, meio grotesco,
O que no seu pijama nem cabia.

Mas, bah! com a chegada da doutora
Jensen, minha doce salvadora,
Retomei minha vida como gente,

Pois agora eu seria bem cuidada
Por dentro como ser inteligente
E por fora como filha muito amada...

FIM


Nota
Estarrecida encontrei recentemente este ciclo de sonetos da Alma, totalmente inédito e desconhecido, que afinal explica as razões de a termos encontrado em deplorável condição vagando no bosque, esfarrapada e cruelmente arranhada, quando então foi por nós internada numa Clínica em Alegrete, em Dezembro de 2005, onde foi diagnosticada como esquizofrênica e ninfomaníaca, o que me fez de saída desconfiar desses diagnósticos que me pareceram equivocados ou arcaicos, ultapassados. Alma ali, creio que por sua extraordinária beleza, também foi assediada por uma atendente ou secretária que fazia chantagem sexual com minha irmã para deixá-la usar o computador (descobri isso na correspondência da Alma com Andrea). Fica aqui o meu protesto. Até o momento do encontro desta escabrosa narrativa em sonetos, a que Alma, em vão (a meu ver) procura dar um tom humorístico, embora tenha logrado o tom erótico (reconheço) eu desconhecia as causas e os responsáveis pelo estado em que ela foi encontrada. É verdade que o médico que a examinou constatou estupros repetidos. É preciso que se diga que o "peão negro" e seu irmão foram despedidos por Rodo pouco depois da internação da Alma, mas Rodo nunca falou sobre o assunto comigo ou com ninguém e eu nem sequer dei importância àquelas demissões, nem relacionei os fatos. Pobre irmãzinha, se não fosse a abençoada doutora Jensen... (Lucia Welt)

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